O problema maior de estar solteira é o tempo livre.
 
É o tempo que você antes tinha para cozinhar, beijar, abraçar, conversar, transar, inclusive brigar, e agora você tem para pensar, pensar, pensar. Em todas as palavras que disse e que ouviu, e que magoaram tanto. Em todas as vezes que você queria falar e fazer alguma coisa para melhorar o casamento e tudo deu errado. Em todos os momentos que você achava que eram de puro amor.
 
Mas que agora parecem pura mentira. Parece que tudo foi uma grande encenação.
 
E aí começa a tortura: repassar o filme do casamento inteiro, do ponto onde acabou, rebobinando dia a dia, briga a briga, transa a transa, palavra por palavra, para tentar achar o momento exato em que deu errado, em que as coisas pararam de funcionar e que o relacionamento, que ia tão bem, bateu no iceberg e começou a afundar.
 
O processo todo deixa a mente ligada o tempo inteiro, e não se consegue mais comer direito, se concentrar, muito menos dormir.
 
Aí é a perdição, porque com a insônia, o que acontece? Você tem MAIS tempo livre. E, também, claro, bem mais olheiras, mas com a confusão toda você nem se olha no espelho direito, então nem dá pra dizer que vai atrapalhar.
 
Com o tempo livre, o que se faz? A gente pode ler, pode ir correr na praça – se tiver ânimo, coisa que eu ainda não tenho -, pode ver filmes. Que é o que eu estou fazendo, me entupindo de filmes. Ao contrário do que eu esperaria de mim mesma, não estou engolindo nenhum filme de ação, de pancadaria, de sangue, de destruição. Muito menos de dramalhão que me faça chorar ainda mais. Os filmes que consigo ver são todos de amor. Todos comédias românticas, das mais absurdas e açucaradas possíveis.
 
Aquele com o Justin Timberlake e a Mila Kunis, em que eles são amigos e resolvem transar, já assisti umas cinco vezes. A partir da terceira vez passei a dispensar o final feliz, então quando sei que eles vão reatar para ficarem felizes para sempre, já desligo e vou assistir outra coisa. A Casa do Lago, Um amor que goste de cachorros, Noites de Tormenta. Preenchendo o meu vazio de romance e me iludindo ainda mais quanto aos finais: cada vez que eu assisto a um filme desses, em que os casais se desentendem e brigam e depois reatam para serem felizes para sempre, penso sempre que, bem, pode ser comigo, né, o Ex vai perceber que não vive sem mim, que eu sou a tampa da panela dele, que o que nós tínhamos era mesmo amor e que ele não poderia nunca me perder.
 
Doce ilusão, porque outra coisa que a gente faz com tanto tempo livre é justamente se torturar espionando o Ex nas redes sociais. Facebook tá aí pra isso, e twitter aberto também. E aí, mais ou menos nesta hora da madrugada, entre um filme e uma ilusão, a gente se pega lendo um comentário que ele posta na foto de uma guria que, bem, deve ter a metade da idade ele. E que, sem surpresa nenhuma, é aquela colega de trabalho que se oferecia para ele nas festas do trabalho.
 
Outra coisa que dá pra fazer com o tempo livre, a esta hora da manhã, é cortar os pulsos.
 
Não, não vou fazer isso. Mas dá vontade.
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