O que fazer com ela, meu deus?
 
Como conviver com essa presença tão firme, tão abrangente, tão invasiva, que se torna a dor?
 
Ela chega com uma mala, uma mochila, e se muda para sua casa, toma conta da sua vida. Vira sua sombra.
 
A dor está lá quando você acorda, e invade o banheiro enquanto você toma banho. Ela observa silenciosa enquanto você toma café, ou escolhe a roupa. De repente, até colocar uma maquiagem no rosto parece uma tarefa árdua, porque lá está a dor olhando por cima dos seus ombros, no reflexo do espelho, e levanta o indicador pedindo sua atenção.
 
E você dá atenção, claro. Onde antes havia uma companhia humana, onde antes havia calor e conversa, e riso, e choro, e até mesmo uma opinião diferente da sua, logo em seguida houve um momento de vazio, e foi aí nesse vácuo que a dor entrou e fixou residência. E não é a mesma coisa que você tinha antes, você pensa, secretamente, mas pelo menos é alguma coisa. Porque antes parecia que nada poderia ser pior que o vazio, e a dor estabeleceu-se tão dócil que lhe parece melhor ter alguma coisa do que não ter nada.
 
Mas ela não permanece dócil, e começa a agir muito rapidamente. Ela invade todos os espaços, e descolore todas as cores, e escurece todas as janelas a ponto de não entrar mais nenhum sol na sua vida. As plantas morrem, obviamente, e a energia já não chega mais nem às lâmpadas, nem à geladeira. Nada mais funciona. E num determinado momento, quando ela já invadiu todos os ambientes e revirou todos os armários, ela encontra a sua cama. E passa a dormir ao seu lado, e a passar os braços ao redor do seu peito, a ponto de sufocar. São pesados os braços da dor, e é com as mãos firmes e fortes que ela finca seus dedos em seu peito e o rasga, estraçalha sua carne, e apoia-se em seus ombros, e você passa a arrastá-la por onde quer que for.
 
A cicatriz fica aberta por um tempo infinito, eu sei. Estou sentindo isso agora. E a dor pesa demais, torna-se doloroso e pesado existir.
 
Como faz para a dor ir embora? Como faz para que ela tire as unhas da sua carne para que a ferida possa finalmente se fechar?
 
Porque é preciso que ela vá embora, senão você não vai sobreviver. É preciso que ela ao menos deixe os seus ombros, para que você possa se locomover de novo. Possa esticar a espinha e descansar o corpo.
 
Porque a dor é cansativa, e chega uma hora em que é preferível ficar sozinha, no vazio, do que com ela. A visita inconveniente que quer mais uma cerveja e quer mais uma piada quando você só consegue bocejar e deseja dormir.
 
Qual é a vassoura para por atrás da porta para que a dor vá embora? E por quanto tempo mais será preciso conviver com ela, até que ela se canse de mim e se vá?
Anúncios