Não sei se foi a volta do sol depois de semanas de frio e chuva e cinza, ou algum alinhamento dos astros que favoreceu a mudança interna em mim, mas algo fez um click que há tempos não havia.
 
Como quando a gente veste uma roupa muito pesada, um sapato apertado, qualquer coisa que cause desconforto, até chegar em casa e despir-se, jogar o sapato longe, e sentir o alívio da própria pele de novo, alinhar a coluna, espreguiçar-se e respirar. É uma sensação deliciosa, avassalaradora: depois de muito e muito tempo embaixo d'água poder vir à superficíe e encher de ar o pulmão, voltar à vida.
 
E aí tudo é novo, tudo é descoberta, re-descoberta, aprendizado.
 
Ontem tive vários momentos de epifania. Almocei com uma amiga querida, que me disse várias coisas sobre meu antigo relacionamento, com a firmeza que só a verdade carrega, e com a delicadeza que só a amizade leva. E nem eram grandes novidades assim, o que ela me disse, mas desta vez fizeram muito sentido. E fizeram ainda mais sentido ao voltar pra casa, quando o sol do fim de tarde batia no meu rosto e me encheu de esperança quanto ao meu futuro.
 
Sim, vou fazer uso de um grande clichê, mas não seria um clichê se não fosse revestido de verdade: é com a chuva que a nuvem negra esvazia, e o sol só pode aparecer depois que ela se vai. O sol, o calor, duas crianças de uniforme correndo livremente pela calçada, nuvens tão finas e inofensivas adornando o céu em forma de raios, um jardim bem cuidado, e eu ali, retornando à vida. Retomando posse da minha vida, sentindo-me absolutamente livre e contente, satisfeita com essa onda de liberdade.
 
Olha, que bom viver.
 
Não sei por quanto tempo esse sol intenso de primavera vai brilhar, nem até quando esse inverno pessoal vai durar. Mas o degelo já é uma realidade, e talvez seja mesmo a hora de aposentar a tristeza.
Anúncios