Hoje foi o dia em que terminei de juntar meus pedaços. Ainda não sei o que fazer com eles, mas agora estão todos organizados, alguns ainda encaixotados, na minha nova – temporária – casa.
 
É incrível o quanto de lixo, e papel, e tralha que se junta e que a gente vai acumulando, acumulando, acumulando. A ponto de se perder no meio de tudo. Comigo foi assim, pelo menos. Não sei bem quando o processo começou, mas sei que ele terminou. Mais especificamente, começou a terminar no domingo (dia da mudança das coisas) e terminou hoje.
 
Joguei tanta coisa fora, mas tanta que nem sei mais. Lá no meio do caminho abri uma revista (Vida Simples) com uma matéria sobre jogar coisas fora, falando sobre os motivos de nos apegarmos a objetos, por uma questão meramente emocional. A gente contrói uma narrativa com nossos objetos, e a presença deles nos ajuda a lembrar quem somos, de onde viemos, e as experiências que acumulamos. Eu li isso lá no domingo, quando ainda estava tateando pelo caminho, sem saber exatamente o que empacotar primeiro. Tem um comentário da jornalista, a respeito de um livro que fala sobre o processo de arrumação, de desapego de objetos, etc, que ensina que devemos jogar fora 50 coisas. E não vale juntar um monte de canetas velhas, porque todas elas contam como um objeto. Não importa o número de batons usados, todos eles contam como apenas um.
 
Aí, bem, dada a pressão psicológica do ex (que precisa do espaço, e que queria me ver longe dali o mais rápido possível), comecei no processo todo, e ao longo do caminho fui fazendo a contagem de coisas que estavam sendo jogadas fora. Canetas, lápis, rímel, batom, esmalte, porta-retratos, estátua de anjo, latas decorativas, blocos usados pela metade, disquetes, revistas, castiçais, rechaud com aromatizador, brinquedinhos que costumávamos dar um ao outro quando começamos a namorar (juntei todos numa caixa de sapato, fechei a caixa sem nem olhar pra trás), sapatos e chinelos, cachecóis, calcinhas, meias, umas bolsas (que me levaram a pensar o que diabos eu estava pensando), bilhetes de cinema de filmes que assistimos juntos, fones de ouvido, um celular velho, pilhas (que vão para um lixo separado), um carregador de baterias, livros e apostilas do curso que larguei no meio, sacolas, dvds, brincos, pulseiras, prendedores de cabelo, perfumes, desodorante, shampoo pela metade (não vou deixar meu shampoo cheiroso pra ele usar ou, ainda pior, pra uma mulher qualquer chegar ali e usar), uma caixa de barra de cereal velho, um guarda-chuva, um massageador de costas, um travesseiro que já estava se desfazendo, óculos de sol (vários), uma caneca rachada, estojo de pano, uma garrafa térmica, camisetas velhas, e tudo isso ainda não chega nos 50 objetos. Ufa.
 
A reportagem ficava martelando na minha cabeça o tempo todo, eu queria chegar aos 50 objetos (seria uma vitória pessoal no meio de um fracasso gigantesco do casamento), e pensava também nos motivos que tinha para ter guardado aquilo por tanto tempo (mais de seis meses, certamente, de outra forma teria juntado nas malas que fiz quando fui dormir fora de casa). Talvez a tristeza do grande fracasso tenha me deixado com uma boa perspectiva sobre esses pequenos fracassos que eu via passar pelos meus olhos a cada objeto que pegava. O livro de yoga, quando eu estava super empolgada com as aulas e determinada mas que eu nunca cheguei a ler e praticar. O tocador de mp3 pra quando decidi voltar a correr (porque o ex havia dito que me acompanharia) e que depois do início do inverno nunca mais foi usado. Os objetos de decoração que ficavam em caixas, porque eu decidi ceder quanto aos enfeites que usaríamos na nossa casa que era dele. Esse ponto-de-vista me ajudou a por tudo em grandes sacolas de lixo sem pestanejar. Ok, o fato de eu pensar "como é que vou carregar isso?" somado ao pânico de me perguntar constantemente "onde é que eu vou guardar isso nos próximos meses?" também ajudou a não me frear no ímpeto de jogar tudo fora.
 
E aí, quatro dias depois, devo confessar que me sinto mais livre. Com menos bolas de ferro amarradas nos meus tornozelos. Com mais espaço pra respirar.
 
O meu mural eu trouxe comigo praticamente intacto. E quando o instalei na parede, a primeira coisa que fiz foi retirar todas as fotos e todos os tickets de shows em que fomos. Eu tinha um painel da nossa história, com o ingresso do show em que demos o primeiro beijo, a foto do nosso primeiro fim-de-semana juntos e o primeiro brinde de ano novo que fizemos. Em todas as fotos eu sempre aparecia feliz, sorridente. Enquanto tirava, uma a uma, só pensava, "onde é que essa pessoa foi parar?" E, mais importante: "como é que eu me torno essa pessoa de volta?"
 
Acho que o primeiro passo, e talvez o mais importante, eu tenha dado: de deixar para trás. De desapegar. De jogar fora, ou doar, ou simplesmente passar adiante. Mesmo que tenha levado quatro dias, foi importante e necessário.
 
Em algum momento eu sei que vou encontrar de novo a pessoa feliz e sorridente das fotos. Para, quem sabe, tirar novas fotos de alegria e momentos a serem lembrados. Por enquanto, enchi o mural com postais que os amigos me enviaram, e postais que eu comprei nas viagens que fiz sozinha. Não foram muitas, mas estão lá, para que eu olhe todos os dias e lembre que eu posso ser uma só, e ainda me divertir.
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