Na mudança, acabei achando algumas cadernetas e antigos diários, e entre uma e outra caixa me sentava para ler as minhas próprias anotações sobre os acontecimentos da vida.

 

É um hábito que eu tenho desde os treze anos, de escrever em agenda e cadernos sobre o meu dia-a-dia, sobre meus sonhos, minhas ideias, sobre meus desejos e conclusões. É a forma que encontrei de organizar os pensamentos, de avaliar os caminhos traçados e os passos dados. Nas palavras que escrevo no fim do dia (isso quando era adolescente, mais recentemente quando encontro tempo, enquanto espero ser atendida no médico ou algo assim) encontro o sentido do que acontece comigo e de como eu ajo com relação a isso.

 

Aí aproveitei a situação toda, separei os caderninhos (porque agenda é muito, muito século passado, e num caderninho eu posso escrever o quanto eu quiser, sem a obrigação de completar tudo todos os dias) mais recentes, que cobriam os dois últimos anos, para ler. Foi uma experiência intensa, eu devo dizer, várias noites me peguei acordada há poucas horas de ter que acordar revendo os acontecimentos de uma tarde longínqua no parque, quando me diverti muito, ou de uma noite de brigas e discussões, que me levaram a chorar todas as lágrimas de novo.

 

Não, o que eu escrevi nos caderninhos (sim, meus diários) não daria um bom livro. Não interessaria a ninguém saber os mínimos detalhes de um sonho que eu tive e da relação maluca que eu fiz com o que me aconteceu mais tarde naquele dia. Mas me interessou muito rever a situação que estava vivendo de dois anos pra cá.

 

Como um sapo numa panela, eu vinha fervendo aos pouquinhos, subindo grau a grau a temperatura da água, sem sequer me dar conta de que as coisas já não me faziam bem, já não me deixavam feliz. A cada página fui lembrada de mais uma insatisfação, de mais uma discussão absurda, de mais uma cobrança esdrúxula, de mais um patamar de exigência impossível de alcançar.

 

Revivi intensamente esses dois últimos anos, e consegui perceber que as coisas vinham mal, muito mal, e que se pudesse ter visto tudo de fora poderia ter entendido os sinais e compreendido que o casamento que havia começado com paixão, amor, carinho e objetivos em comum estava desmoronando. Uma conclusão triste de chegar, mas um alento: o fim já estava ali, já estava anunciado. Eu é que fui cega, ou ingênua.

 

Ou otimista.

 

Ou apaixonada.

 

Ou medrosa.

 

Ou todas as coisas ao mesmo tempo.

 

O fato é que acabei cozida, aos pouquinhos, como o sapo do título, e vim arrastando essa corrente por mais tempo do que faria se tivesse simplesmente sido jogada na panela com a água já borbulhante. Verdade seja dita: se conhecesse hoje meu atual ex-marido, pensando friamente, acharia ele um babaca. Um chato. Um cara que tem medo de crescer. Um egoista que não sabe ceder nem fazer concessões. E todo mundo sabe que um casamento não é um cabo-de-guerra pra ver quem é que tem mais corda, mas sim uma corrida do saco em dupla, em que os dois têm que pular em sincronia pra ninguém cair. Quer dizer, quase todo mundo: ele não sabe.

 

Mas daí isso já não é mais problema meu, o que ele quer e o que ele sabe. Não sei exatamente se foi ele quem se tornou babaca, ou se eu me tornei mais exigente nesses últimos dois anos. O que eu percebi é que acabei me acomodando, aceitando a água cada vez mais quente sem querer me dar ao trabalho de pular fora, na esperança de que o fogo se desligasse sozinho. Bem, lição aprendida: a gente tem que sair da panela e desligar o fogão a gente mesma, pra não ferver mais até morrer.

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