Há uns dois anos atrás, quase três, eu precisei ficar internada no hospital por alguns dias. Eu nasci com uma disfunção e precisei ser operada. Até aí, nada de mais, você vai pensar, porque pessoas são operadas e sobrevivem e seguem suas vidas normalmente. 

 

É verdade. Eu segui com a minha, sem maiores consequências. O legal foi receber a visita de vários amigos, e receber o carinho espontâneo de tanta gente que eu achava afastada demais da minha vida para se importar.

 

Uma menina que eu conheço, a quem aprendi a admirar profundamente, foi uma tarde lá me fazer companhia. A vida dela deu uma reviravolta quando ela descobriu uma doença grave, degenerativa, que a obrigou a mudar completamente sua realidade. No meio da conversa me lembro de perguntar a ela como ela se sentiu quando o médico deu o diagnóstico, e como ela tinha reagido a essa notícia tão arrasadora.

 

Ela foi bem direta: olhando a doença nos olhos, enfrentando de queixo erguido, e, acima de tudo, sem sentir pena de mim mesma.

 

Ela me contou que se fechou no quarto no primeiro dia, e chorou, chorou, chorou, até cansar. Aí levantou e sacudiu a poeira e se preparou para enfrentar todas as dificuldades que iriam aparecer. 

 

Eu não me lembrava dessa conversa até uns dias atrás, quando me peguei no escuro, encharcando o travesseiro de lágrimas, com pena de mim mesma e terror absoluto por me sentir a criatura mais sozinha e abandonada do universo. Lembrei de todo o carinho que eu senti, de todos os abraços que recebi, das visitas, das conversas, de todas as pessoas que demonstraram preocupação e apreço por mim quando eu precisava. Deliberadamente tratei de excluir o ex das lembranças, por mais que meu instinto fosse de ficar remoendo o quanto ele reclamou e o quando ele incomodou e o quanto ele foi crítico e negativo com relação ao meu caso, que, por fim, se resolveu mais rápido do que eu imaginava.

 

Eu me envolvi nesse carinho recebido, nessa memória boa, como se recebesse o abraço mais quente e mais cheio de amor de todos. E aí me veio à mente a conversa com a amiga, e as palavras sábias dela encheram o quarto:

 

– Eu não me permito chorar, ela disse. Eu não me permito ter pena de mim mesma, porque a energia que a gente gasta tendo pena de si mesma é a energia necessária pra resolver a vida e continuar seguindo, ela disse.

 

Nessa noite eu decidi que choraria tudo o que precisasse ainda ser chorado, até as lágrimas secarem, até deixar rolar a última tristeza, até a última lembrança secar na pele até ficar o sal. Para, depois que acabasse, nunca mais me permitir sequer deixar os olhos marejados, porque é uma energia que eu preciso para me reconstruir, para me reencontrar. Para continuar respirando, e andando e vivendo. Sobrevivendo, né, mas ainda assim seguindo em frente.

 

Em dias que a tristeza vem como um tsunami e quer me derrubar eu só penso que eu já chorei tudo que podia e que não podia. Penso na voz da minha amiga, me dizendo que ter pena de si mesma é gastar energia, como apostar num cavalo que já morreu antes mesmo da corrida começar. Penso em todo o carinho que recebi, e me enrolo nele como uma bóia, para manter a cabeça por cima da água e continuar respirando.

 

E aí eu sobrevivo mais um dia.

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