Tem aquela velha expressão de se sentir mais perdida que cachorro em dia de mudança, né. Que eu não havia experimentado, pelo menos não até agora.

 

É o vazio deixado pela coisa que não está mais lá misturado com a inadequação de não ter mais lugar no mundo, de estar sem casa, sem pátria, sem rumo.

 

O cachorro foi deixado pra trás, no meu caso. E os donos fizeram questão de não deixar a trilha para o bichinho seguir.

 

O que tem me gerado sensações estranhas, desconhecidas e opressivas. Medo e angústia e confusão, pra começar. Distração constante, esquecimento, pensamentos dispersos, vontade de estar em casa quando estou na rua, e vontade de estar na rua quando estou em casa.

 

A mais estranha de todas: a vontade de não estar sozinha, de voltar ao passado e estar com ele, estar vivendo a minha antiga vida, só para não me sentir tão sozinha, para sentir que tenho alguém para me ouvir se houver algo a dizer no meio da noite.

 

Sabe aquela coisa de estender o braço e ter ali alguém que tu pode acordar só pra dizer, me abraça porque não consigo dormir? Então, é disso que estou falando.

 

Eu tenho uma amiga psicóloga que disse que tudo isso é muito normal de sentir, ainda passando por uma reviravolta tão grande na vida como esta minha. Mas daí, como minha amiga, ela me lembra que eu tenho que ser forte. Tenho que resistir estoicamente, tenho que me concentrar em preencher esses espaços todos que ficaram com coisas boas, e com novas atividades e amizades e coisas que me fazem bem.

 

Eu ainda não sei o que me faz bem. Quer dizer, não sei mais o que me faz bem sem também cogitar se faz bem a ele, porque é isso que a gente faz quando casa, não é, a gente abdica de pensar só em si para dividir os pensamentos e incluir o outro naquilo que faz e que quer. Eu, pelo menos, penso assim, e agi assim, desde que decidimos dividir e misturar nossas vidas, há oito anos atrás. E isso se tornou um hábito que está sendo bem difícil de abrir mão, sabe.

 

Assim como o cachorro esquecido na mudança, também fui deixada pra trás. Ele resolveu seguir com a vida dele sem mim, e se foi, sem deixar vestígio. Agora cabe a mim achar uma nova morada, um novo espaço no mundo, um novo lugar para chamar de lar. 

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