De acordo com o este artigo da wikipedia, que apresenta o chamado Modelo Kübler-Ross, uma pessoa que tenha experimentado uma grande perda em sua vida passa por cinco etapas até elaborar por completo o seu luto e estar pronto para seguir em frente. O modelo foi apresentado em 1969, pela psicóloga americana Elisabeth Kübler-Ross (daí o nome), no seu livro chamado On Death and Dying, e vem sendo usado desde então para auxiliar pessoas que tiveram que enfrentar mortes de todos os tipos, inclusive um divórcio. 

 

E por que não seria um divórcio considerado também uma morte? O casamento é como um ser que morre, e coisas precisam ser divididas e organizadas, para se seguir em frente sem ele. Um ente desaparece: o ente que existia entre a pessoa e o esposo (ou esposa) já não está mais lá.

 

Eu particularmente começo a achar que seria muito mais fácil, neste momento, lidar com tudo o que está me acontecendo se o meu ex estivesse morto de verdade do que ficar me preocupando se vou encontra-lo no supermercado (e se sim, ele vai estar acompanhado? Ele vai estar sozinho?) ou como devo agir quando o vir nos eventos dos amigos em comum (cumprimento com um abano de longe? Beijinhos no rosto? Sento perto para conversar? Ignoro completamente?). São tantas as variáveis que já cansei de ficar imaginando o que faria ou deixaria de fazer nessas – e outras – situações.

 

Pois bem, o modelo fala de cinco estágios, e que a pessoa necessariamente passa por pelo menos dois deles, mas não necessariamente na ordem apresentada, e nem é obrigatório que passe por todos eles.

 

O estágio um é a negação/isolamento. É o primeiro mecanismo de defesa, e é quando a pessoa não aceita a realidade. Como se, deixando de acreditar, o fato não tivesse acontecido.

 

O estágio dois é a raiva. É quando se começa a questionar o fato, e a enfrenta-lo com todas as energias do mundo, como se isso pudesse muda-lo. É a fase das reações violentas, e da falta de paciência.

 

O estágio três é a negociação. Quando começamos a criar mecanismos na esperança de que a realidade mude (se eu fizer tais e tais coisas, ou disser as palavras certas, então ele vai perceber que ainda me ama e que fez uma grande bobagem e vai voltar pra mim, por exemplo).

 

O estágio quatro é a depressão. É quando as coisas não têm mais graça nenhuma, e a pessoa deixa de lado as atividades e o contato social porque não vê mais motivo nenhum que a leve a seguir em frente. A pessoa é “nocauteada” pelo fato, e não encontra forças para se levantar.

 

O estágio cinco é a aceitação. É quando nos vemos inseridos nessa nova realidade, e não tentamos lutar contra ela nem nos martirizar por causa dela, mas encontramos caminhos para seguir em frente apesar e por meio dela. É o acordar num dia de sol depois de semanas de chuva e tempo frio. É o varrer a sujeira para fora, trocar as flores da sala e fazer um bolo bem gostoso para esperar a visita.

 

Não, eu não cheguei no estágio cinco ainda. Acho lindo que exista a possibilidade de talvez um dia encontrar uma coisa positiva no meu divórcio, mas tenho que confessar que no momento me sinto mais indignada e furiosa do que qualquer outra coisa.

 

Por exemplo, eu tenho raiva de mim mesma, antes de tudo, de ter deixado as coisas chegarem no ponto em que chegaram, e de não ter confrontado o ex marido sobre o fato de que não conversávamos mais, não nos olhávamos mais, sequer nos tocávamos.Tenho raiva de estar triste por causa dele, e por lembrar dele o tempo inteiro. Tenho raiva de mim mesma, principalmente por sentir a falta dele, e querer, a todo momento, pegar o telefone e ligar para conversar com ele, para ouvir a voz dele, e saber a opinião dele sobre as decisões que tenho que tomar. (também por isso eu tenho raiva, porque não preciso mais saber a opinião dele a respeito das coisas).

 

Tenho raiva dele, muita raiva, e vontade de encontrar com ele só pra poder socar a cara dele. Tenho raiva da decisão que ele tomou, e de ter sido um covarde de terminar comigo, porque ele poderia ter conversado, me explicado as suas razões, e a gente poderia tentar salvar o casamento. Tenho raiva porque ele deixou de me amar, e eu não percebi. Tenho raiva porque ele sentiu que as coisas não estavam indo bem, mas ainda assim preferiu fechar os olhos, e deixar tudo morrer. Tenho raiva de todas as vezes em que ele se jogou no trabalho quando eu dizia que queria conversar, e que estava com saudades, e que organizava um jantar só para nós. 

 

Tenho raiva por todos os planos que tive que matar por causa dele. Tenho raiva de ter esperado para engravidar “quando fosse o momento certo”, nas palavras dele, e de não ter feito o que eu tinha vontade. Tenho muita, muita raiva porque abri mão de tanta coisa por causa dele, e mais raiva ainda porque me fechei para o mundo nesses oito anos, e acabei criando uma muralha tão alta que mesmo de dentro dela vai ser difícil de derrubar.

 

Tenho muita raiva dos amigos que chegam para mim para dizer que vai ser melhor assim, e que eu vou superar essa: como é que eles sabem que eu vou superar essa? E como é que ficar sofrendo e morrendo por dentro é melhor? 

 

Tenho raiva desse clima todo de amor e todas essas pessoas se beijando e se abrançando e sendo felizes pela rua enquanto eu estou sofrendo e morrendo por dentro. Será que não dá pro mundo ser um pouco mais sensível, não? E, claro, tenho muita, mas muita raiva de que daqui a pouco é dia dos namorados, só pra me lembrar, de mais uma forma maligna, de que eu estou sozinha, separada, abandonada.

 

Sério, muita raiva.

 

 

 

 

 

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