Tá me faltando leveza na vida, eu sei. Tá me faltando ver as coisas com menos lágrimas nos olhos, tá me faltando uma perspectiva mais iluminada, mais calorosa, menos dolorida da vida.

 

Percebi isso no sábado, quando me propus a sair de casa e encontrar com alguns amigos. Era uma comunhão de comemorações: um dos meus amigos ganhou uma bolsa de estudos para o exterior, a outra foi pedida em casamento, o bebê da outra amiga acabou de completar um mês, e assim me arrumei para sair de casa e cumprir o itinerário que tinha já organizado na minha cabeça: visitar o bebê, depois ir conhecer uma sorveteria nova, depois encontrar mais gente para jantar e depois a gente ia ver o que ia fazer.

 

Visitar a minha amiga com o bebê foi uma delícia. Eu não sei bem como ela consegue, mas a admiro profundamente: me recebeu com a casa arrumada, os cabelos lavados, uma alegria no rosto, e cupcakes recém saídos do forno. O bebê, querido, dormia. Ela me perguntou como eu estava, como estavam as coisas entre o ex e eu, e eu não tive muito que dizer, porque, bem, porque as coisas não existem mais entre o ex e eu. Aí eu perguntei como ela estava, se estava precisando de alguma ajuda, se já tinha se ajustado à rotina do bebê, e ela, muito tranquilamente, me respondeu que claro que as coisas ficaram meio bagunçadas no início, mas que o importante era manter a rotina normal de trabalho (ela tem um home office) e fazer o bebê entender isso. E, claro, encarar as coisas de uma forma sem dramas, porque, né, pessoas vêm tendo filhos há tanto tempo, não pode ser uma tarefa tão difícil.

 

Tudo assim, com leveza. Com uma graça e uma elegância que eu desejei ter também.

 

Atravessando a cidade para ir encontrar o amigo na sorveteria fui pensando nisso: quais são as escolhas que eu estou fazendo agora? Estou me adaptando à realidade ou adaptando a realidade aos meus desejos e aos meus anseios? E o que seria mais importante?

 

Depois do sorvete, convenci o amigo a me acompanhar nessa caminhada pela cidade, e fomos até o “reduto dos barzinhos” para decidir onde seria o jantar. Aí vieram o casal de amigos que vão casar e o amigo que vai viajar. Optamos por um restaurante árabe, que minha amiga já conhecia, e que veio a ser uma deliciosa descoberta. O que aconteceu, na hora de sentarmos foi que, por estarmos em número ímpar, eu acabei sentando de frente para um lugar vazio. No meio de toda a vida acontecendo, as pessoas sendo felizes e casando e sendo felizes e sendo agraciadas com bolsas de estudo e sendo felizes e descobrindo sorveterias novas na cidade, eu bem no meio, de frente para um lugar vazio. Uma cadeira vazia, que virou uma janela para a mesa logo em frente, com pessoas também felizes, expressando isso com olhares apaixonados e mãos encontrando as outras mãos entre os pratos e talheres sobre a mesa.

 

Aí eu parei pra pensar. O que pesa mais: ter na minha frente um lugar vazio ou ter uma pessoa que não me olhava mais de forma apaixonada, e cujas mãos não mais procuravam as minhas para segurar? E, percebendo isso, o que eu quero para mim, agora? Carregar pesos mortos ou caminhar leve, escolhendo meus próprios caminhos? Por quanto mais tempo eu me obrigaria a ter essas bolas de ferro presas aos pés?

 

Por quanto mais tempo eu quero ter essas bolas de ferro presas aos pés?

 

Acho que esse tempo já acabou. É claro que a saudade ainda dói, e a tristeza ainda dá as caras lá em casa, mas já não é mais tão imponente e forte como nos primeiros dias. Acho que meus tempos de prisioneira do meu passado estão chegando ao fim. Pelo menos é isso que eu quero.

 

Depois de decidir isso, me permiti estar contente, compartilhar da felicidade dos meus amigos, e foi tudo muito divertido. Me senti jovem, e empolgada, e não me permiti pensar no ex pelo restante da noite, enquanto íamos para um bar terminar a comemoração. Quer dizer, foi um exercício: cada vez que vinha o pensamento ou a lembrança dele, eu decidia olhar em volta, e valorizar as pessoas que estavam ali, que estavam me abraçando e rindo comigo e me ouvindo e me contanto histórias e me mostrando que existe beleza ainda na vida.

 

Existe vida depois da morte, digamos assim. 

 

O exercício funcionou, chegou uma hora que era automático mudar o foco do pensamento do passado para o presente. E isso fez toda a diferença: a noite ficou mais leve, eu fiquei mais leve, e cheguei em casa às quatro da manhã, com dores pelo corpo de caminhar feito uma jovem pela cidade à noite, já prevendo a dor de cabeça do dia seguinte (que nem foi tanta assim), e, na medida que alguém pode ser feliz no momento em que estou vivendo agora, feliz.

 

(Um agradecimento imenso e eterno a esses meus amigos, por me ajudarem a ver a vida com outro foco! Prometo continuar com o exercício de ver o presente e de comemorar as pessoas que estão presentes.)

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