Ontem no feriado, eu quase morri por dentro. De cólica e de saudade. Queria escrever, queria gritar, queria ligar e falar e ouvir a voz dele, mas respirei fundo, e fiz um chá, e abracei a minha dor física (sabe quando tudo por dentro parece dar um nó? Então).

 

E aí eu medi a saudade. Medi do que exatamente tenho saudade. Medi e listei do que sinto falta.

 

Sinto falta da intimidade. Sinto falta de acordar e ficar de pijama e beijar sem escovar os dentes, sabe, nesse nível de intimidade. Sinto falta de passar a manhã inteira explorando o corpo dele, e deixando o meu para reconhecimento e reconquista, sem me preocupar com os quilos a mais, ou celulite ou outras coisas bobas. Sinto falta dessa confiança que havia, pelo menos eu achava que havia. Sinto falta da barba leve da manhã roçando no meu ombro para me acordar. Sinto falta da presença, de saber da presença dele, mesmo que no outro quarto. O perfume nas roupas antes de colocar na máquina de lavar. Sinto falta das conversas bobas e sem importância, que preenchiam o dia entre as coisas importantes. Sinto falta das piadas sem graça que não faziam o menor sentido, e das risadas compartilhadas. Sinto falta de segurar a mão pra atravessar a rua e para caminhar. Sinto falta das nossas piadas internas no escuro do cinema. Sinto falta de sempre haver música, mesmo quando era mais alta do que eu tolerava.

 

Aí eu parei, pra não me sentir ainda pior. E decidi pensar nas coisas que eu não sinto falta, ou melhor, das coisas que fico contente por não ter mais que lidar, pra compensar.

 

Me livrei das grosseiras e das alterações de humor. Me livrei do mau humor e do pessimismo. Me livrei dos pés sempre gelados que eu tinha que enfrentar debaixo das cobertas. Me livrei da falta de horários para dormir e para acordar, e me livrei da desculpa de ser insone quando na verdade era vontade de estar fazendo qualquer outra coisa no computador em vez de deitar-se comigo. Não sinto falta nenhuma da preocupação constante que tinha com a imprudência e a irresponsabilidade de sair para beber dirigindo. Não sinto falta de estar sempre alerta nesses dias que ele saía para beber dirigindo, porque eu não conseguia parar um minuto sequer de pensar em todas as possibilidades trágicas disso. Não sinto falta da insensibilidade com minhas emoções, e vontades. E não sinto falta nenhuma de, quando queria chorar, não podia fazer na frente dele, porque chorar era considerado “ofensivo”, principalmente se acontecia depois de ele me dizer alguma coisa que não era pra me magoar mas era “a mais pura verdade”, que acaba normalmente sendo uma coisa ruim, uma crítica ou uma acusação absurda. Não sinto falta nenhuma de sair com os amigos e ficar sempre tensa sobre qual seria a próxima palavra brutal que ouviria dele, seja pra criticar uma roupa ou um comentário ou uma idéia minha.

 

Ok, ok. Consegui respirar fundo e me lembrar de todas as coisas ruins e que me incomodavam e que apagaram toda a saudade. Aí fiz um bom chá, me enrolei nas cobertas, tomei um remédio pra cólica e passei o fim do dia vendo filmes e seriados. Pelo menos consegui acordar melhorzinha hoje. Sobrevivida, digamos assim. 

 

Só mais um dia. Um dia de cada vez!

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