O que fazer quando a gente está de luto? Qual a melhor forma de agir, numa situação de luto? Como interagir com a sociedade, enquanto estamos de luto? E, mais importante, quanto tempo ele dura? E como a gente sabe quando ele acaba?

 

Com essas perguntas na cabeça fui fazer uma pesquisa sobre como as pessoas agem/reagem quando estão de luto, e o que percebi é que não há muita coisa sobre “regras sociais sobre o luto” para os dias de hoje. Aí me lembrei que, há um tempo atrás li este livro, da Joan Didion, que é uma escritora maravilhosa, e que passou pela horrível situação de perder o marido e a filha num intervalo muito pequeno de tempo. E num dos capítulos ela justamente fala que em todos os livros de etiqueta, até uns anos atrás, sempre havia um capítulo sobre luto e morte, e que éramos ensinados a lidar com a morte, a respeitar a dor alheia e, mais importante, tínhamos consciência do quão vital é se dar o tempo necessário para processar a perda, para chorar, para sentir falta, para sofrer e, para, eventualmente, resolver as coisas e seguir em frente.

 

Hoje em dia não temos mais isso. A regra é que sejamos todos felizes, satisfeitos, radiantes, de cabelos e maquiagem impecáveis o tempo inteiro. A sociedade exige que a gente não perturbe essa noção de euforia e beleza e juventude eterna com a nossa dor, qualquer que seja ela. Como se a dor fosse contagiosa. Como se sofrer fosse feio. Como se chorar pela perda de algum amor fosse errado.

 

Acontece que não é. A gente precisa lidar com a dor, com a perda, com o sofrimento de alguma forma. Qualquer que seja. Mas a gente precisa. 

 

A pessoa que experimenta o luto pode sentir diversas reações, como ansiedade, tristeza profunda, choque, raiva, hostilidade, fadiga. Dizem os especialistas que quanto maior a ligação emocional com o ente perdido, mais profundamente a pessoa vai sentir o luto. Que é o período em que a pessoa vai poder se desfazer dos laços emocionais, ao seu tempo, aos poucos, como uma despedida. Uma chance de desvincular-se e eliminar a expectativa de amor ou presença eternos.

 

Antigamente era comum que as pessoas usassem sinais para indicar o luto, como roupas pretas, faixas nos braços, capas. Havia, inclusive, indicações de tempo mínimo para manter-se de luto, e as pessoas enlutadas não eram obrigadas a conviver em eventos sociais, como bailes e casamentos, e ninguém acharia isso deselegante. 

 

Eu acredito que a gente aprende muito sobre uma sociedade quando aprende sobre como ela lida com a morte. E, nesse ponto, eu acho que a gente perdeu muito de não respeitar mais essas situações de perda e não se resguardar para essas despedidas. 

 

Mas e quando a morte é de um amor, não de uma pessoa, como proceder com o luto? De que forma a gente desfaz os nós que existiam para seguir em frente sem ser julgada pelos conhecidos e desconhecidos, por causa do sofrimento que está passando? Como desligar todas as vozes e alegrias e festas do mundo exterior para desmontar, peça a peça, os sonhos e as ilusões e os planos que se tinham em conjunto com a outra pessoa?

 

Mais importante de tudo, como a gente percebe, lá no fundo da alma, que já não há mais peças pra desmontar? Já não há mais lixo para por pra fora? Qual o momento em que o coração diz, ok, chega, já encaixotamos tudo que havia para encaixotar, já doamos e passamos adiante tudo o que precisava sair, agora é a hora da mudança?

 

Na maioria dos artigos que li sobre o assunto, as pessoas que passavam pelo luto eram chamadas de sobreviventes. Como as pessoas lá de Nova Orleans, ou da Tailândia, depois do furacão Katrina e do Tsunami. As que não sucumbiram, as que foram fortes, as que encontraram alguma forma de manter a cabeça fora da água durante a crise e souberam respirar. Os sobreviventes, que depois de limpar, organizar, e reconstruir fisicamente suas cidades e casas, tem que agora reconstruir suas vidas.

 

Eu me vejo como uma sobrevivente. Fiquei por algum tempo boiando até a água baixar, e já tirei toda a sujeira que havia, e limpei a lama, e organizei tudo, e reconstruí a mim mesma. Se a imagem fosse de morte, digamos que já velei o corpo, já chorei, já baixei o caixão, já cimentei o túmulo e já enfeitei a lápide (porque lembrar é sempre uma forma de não cometer os mesmos erros do passado, certo?).

 

E agora, que vem depois?

 

Não, ainda não tenho a resposta, mas este é um blog para redescobrir a minha vida, dentro desta nova realidade que me foi, de certa forma, imposta.

 

Sendo bem sincera, ainda não sei o que vem agora. Mas, depois de passar pelo tsunami, e de ver morrer uma boa parte do que eu acreditava que era eu, acho que talvez esteja pronta para seguir em frente.

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