Acho que já contei, mas há uns poucos anos eu precisei ficar internada no hospital, e fazer um tratamento que me obrigou a mudar várias coisas na minha rotina, e que acabou por mudar meu corpo.

 

Na época eu fiquei muito, muito preocupada, porque o corpo é nosso ponto de contato com o mundo, com as outras pessoas, e qualquer mudança na forma física passa também, e afeta diretamente, a forma como a gente se vê e se sente. Me lembro da insegurança que eu senti, da apreensão, da tensão de ter que tirar a roupa de novo, na frente dele. Na época, logo depois de ter saído do hospital, a minha apreensão maior era com relação à aceitação dele, do ex, sobre a minha nova realidade. Eu não estava preocupada em como eu reagiria ou pensaria o mundo com uma “nova” embalagem, estava preocupada com o que ele iria pensar, e de que forma ele iria agir com relação a essas mudanças obrigatórias.

 

No começo foi estranho. Eu me lembro de pensar que era quase como uma redescoberta, um recomeço, tanto para mim como para ele. Depois, claro, foi tranquilo, e as coisas se encaminharam mais ou menos para o que eram antes, e eu acabei não pensando mais nisso.

 

Voltei a pensar nisso agora. Porque eventualmente eu vou conhecer alguém novo (ou reencontrar alguém, ou redescobrir alguém, enfim) e eventualmente vou me interessar por essa pessoa e, bem, sendo otimista, essa pessoa também vai se interessar por mim, e nós vamos querer nos conhecer melhor, e talvez aconteça de nos beijarmos, e, sendo ainda mais otimista, o beijo vai ser bom e vai acontecer de eu querer algo mais, e de ele querer algo mais, e aí vamos chegar no ponto em que eu vou ter que tirar a roupa. Na frente dessa pessoa nova, desconhecida, que não sabe tudo por que eu passei. Não sabe dos obstáculos e dificuldades que eu enfrentei. Não sabe os motivos das cicatrizes que levo.

 

No meio da arrumação eu me peguei olhando fotos de uns três anos atrás, de festas em que fui, que decidi imprimir e guardar porque eu estava visivelmente feliz naquelas fotos. Estava me divertindo. Estava com amigos. Estava amando e sendo amada. E a felicidade é a melhor das maquiagens que a gente pode usar, eu estava linda. Ao menos me vendo agora, nas fotos, estou achando que estava linda, naquela altura. Ainda não tinha ficado doente, ainda não havia visto todas as manchas e rachaduras nas fundações do relacionamento que vivia, e agradeço imensamente por ter registrado aqueles momentos, porque posso hoje parar e pensar a respeito do quanto minha vida mudou. Do quanto também eu cresci por causa dessas mudanças.

 

Mas o fato é que eu me olho nessas fotos e não me reconheço mais. Eu não sou mais aquela pessoa. 

 

Só que quando eu me olho no espelho, eu também não me reconheço. Ainda não sei se sou essa pessoa do reflexo.

 

No meio de todas essas mudanças, acho que esqueci de parar para respirar, para me ouvir, para me entender, para me reconhecer de novo em mim mesma. E como eu poderia agora querer pensar em me sentir confortável ao lado de alguém, nua, se eu ainda não sei se me sinto confortável na minha própria pele?

 

Não seria tanto uma questão de auto-estima, mas de auto-dúvida. Será que sou bonita o suficiente? Atraente o suficiente? Interessante o suficiente? Não sou mais tão jovem quanto era quando comecei a namorar o ex, isso eu sei. Mas o quanto isso importa, de fato?

 

Quando se está há oito anos com a mesma pessoa, a atração e o desejo passam por outras questões, além da aparência física, e por isso eu não me preocupava mais tanto com coisas bobas como celulite, ou rugas, ou o cruel espelho no teto numa ida ao motel. Porque eu também não ligava mais para a barriguinha de cerveja, nem para os cabelos brancos que estavam ficando aparentes, entre outras coisas. Porque eu já tinha aprendido a ver além do corpo, a me entregar também além do corpo.

 

E por mais que se diga que não, a imagem que a gente acaba fazendo de nós mesmos passa também pela aceitação e validação do outro. O outro é como um reflexo. Ou melhor, é onde a gente enxerga um reflexo, dos vários que a gente usa pra montar a nossa auto-imagem, aquela idéia que a gente faz de si próprio na mente. E é a partir dessa imagem que temos de nós mesmos que fazemos as escolhas que nos colocam em contato com o mundo ao nosso redor.

 

Esses dias eu estava lendo um artigo na internet (me desculpem não compartilhar o link, mas eu perdi no meio de várias abas que se fecharam quando eu desliguei o computador sem salvá-las), justamente sobre auto-imagem e auto-sabotagem (prometo procurar pra compartilhar, porque era bem interessante), e a autora do artigo perguntava, por que nós conseguimos ser tão condescendentes e compreensivos com amigos mas na hora de cuidarmos de nós acabamos por ser tão críticos e exigentes? E não é verdade? O julgamente que eu estava fazendo, quando me olhava no espelho, eu jamais faria com uma amiga. Porque se eu falasse para ela as coisas que estava pensando de mim mesma, certamente ela não seria mais minha amiga, ou não me quereria por perto. Ainda mais num momento tão delicado, de redescobrimentos.

 

Aí decidi ser mais branda comigo mesma. Menos exigente. Deixar o olhar passear pelo espelho sem emitir qualquer opinião. Tenho feito bastante esse exercício do olhar. Olhar o meu rosto, meu cabelo, meus olhos, o contorno da minha boca. Os ombros, as costas. Meus peitos, minhas pernas. Olhar sem fazer qualquer julgamento, ou qualquer comparação com o que eu era no passado. Olhar para as minhas marcas e não ter pena ou vergonha ou medo. Olhar simplesmente, num aprendizado de reconhecimento e aceitação. Não está sendo fácil, sabe. O reflexo dos meus próprios olhos é o meu próprio, em que ainda não me reconheço, ainda não sei o que dizer a respeito. Sem saber o que fazer com essa imagem totalmente nova de mim, apenas olho. 

 

E escrevendo agora me lembrei da cena lá no final do filme Feito Cães e Gatos, (link aqui), em que a Uma Thurman diz pra Janeane Garofalo que depois de se olhar muito no espelho, o rosto não passa de formas, algumas mais quadradas, outras mais redondas, mas apenas isso, formas. E formas não são boas nem más, o que determina esse julgamento é o valor que a gente atribui a elas. Assim como o valor que a gente atribui a nós mesmas. O valor que eu vou atribuir a mim mesma, a partir de agora, nesta nova realidade. Sem a interferência do olhar de uma outra pessoa, que pode mudar de idéia de uma hora pra outra, e me deixar de novo órfã da sua opinião. O valor que eu me atribuo tem que depender de mim, apenas, e do meu olhar. Da minha própria força, e da minha própria constância. 

 

 

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