Uma luz no fim do túnel. Única coisa que consigo pensar de tudo que me aconteceu desde semana passada até hoje.

 

Desde a semana passada que não consigo parar e pensar e respirar direito, e, bem, acho que tudo isso de uma forma positiva. Da última vez que me senti assim foi como se uma betoneira estivesse passando diversas vezes por cima de mim para depois me soterrar de pedras e cimento, mas desta vez é diferente.

 

Durante a semana passada toda as conversas e mensagens com o menino, aquele meu amigo que já falei, se intensificaram até que combinamos de ir ao cinema, tomar um chopp, essas coisas que pessoas normais (que não estão arrasadas e se sentindo morrendo por dentro, eu quero dizer) fazem. Depois de muito confabular e questionar e pensar e repensar, não achei nenhum impedimento sério contra a idéia – não estou traindo ninguém, não estou enganando ninguém nem nada mais grave – então aceitei.

 

É preciso que se diga que ele e eu nos conhecemos há muito, muito tempo. Temos outros amigos em comum, temos vários assuntos em comum, e a conversa sempre foi muito leve, muito divertida, muito interessante entre nós. Pelo menos da minha parte, nunca houve nenhum outro interesse além disso. Mas, me adianto.

 

O fato é que fomos ao cinema. Como amigos. Apenas isso. Antes da sessão fomos tomar um chopp. Como amigos. Simples assim.

 

Só que não foi tão simples assim na minha cabeça. Porque ainda havia todas as neuras e cobranças dentro da minha cabeça me fazendo pensar no ex, naquilo que ele diria, naquilo que conversaríamos, se é que estaríamos ali conversando, animadamente. As neuras e cobranças me trazendo do fundo da memória as lembranças das primeiras vezes em que saí com o ex, e de como era bom e divertido e interessante. Para, na sequência, me fazer lembrar de tantas outras vezes em que foi triste, horrível, em que brigamos, em que discutimos, em que a minha vontade era de sair correndo da mesa para chorar no banheiro. Sem contar a sensação de estar sendo vigiada, de estar fazendo algo muito muito errado, como se eu estivesse traindo alguém, como se eu estivesse apenas esperando pra aparecer alguém e apontar o dedo pra mim e me cobrir de julgamentos terríveis.

 

Mas aí eu não sei se foi o álcool do primeiro gole fazendo efeito em dissolver as neuras, ou uma luz de sanidade interna, só sei que respirei fundo e me dei conta de que não só não estava prestando atenção no que estava me acontecendo ali, naquele momento, como também estava perdendo uma ótima oportunidade de conversar com alguém que estava ali querendo me ouvir, querendo ser ouvido, merecendo o meu tempo.

 

E foi divertido, foi leve, foi interessante.

 

Ok, também foi estranho. Não estar mais no automático e não ter quem decifrasse os códigos de “quero uma água com gás” e “vou ao banheiro, te encontro lá dentro” e “vamos sentar à direita ou à esquerda?” me fez perceber que talvez eu estivesse vivendo no automático há tempo demais. Ter que parar e pensar e negociar todas essas coisas em voz alta, olhando nos olhos de uma pessoa diferente, para entendê-la e me fazer ser entendida, foi um exercício ótimo para o cérebro. 

 

Para o coração não digo, porque acho que esse ainda não se recuperou.

 

Mas me fez um bem tremendo, depois que eu consegui desligar as neuras e cobranças tão antigas, estar na rua, rindo de novo de coisas bobas. Foram algumas horas em que, posso dizer com toda a verdade, consegui desligar do passado, da dor, da tristeza, das lágrimas, tudo, e me senti bem por estar ali, conversando com um amigo preocupado com o meu bem estar, querendo de todas as formas me distrair e me dar atenção.

 

O que ele não sabe foi que ele conseguiu me fazer lembrar de mim mesma, e que essa lembrança é que me deixou mais perturbada. Então quer dizer que eu sou uma pessoa legal, divertida? Mas então, gente, onde é que eu fui parar mesmo?

 

Ele me deixou em casa, com uma despedida simples, um abraço sincero e uma pergunta: vamos fazer isso mais vezes? Sim, claro.

 

Nesta semana as mensagens continuaram, e a possibilidade de um chopp, talvez amanhã. Estou tentando não criar expectativas, não colocar muita informação nessa coisa toda, mas eu cresci com muitos contos de fada pra não pensar em quão mágico seria se alguém (ele, ou qualquer outra pessoa) simplesmente me aparecesse na frente para me resgatar de mim mesma, e me levasse para uma nova realidade, e pudesse deixar o meu presente tão reluzente e brilhante a ponto de apagar o passado por completo. E não é assim que acontece nos contos de fada? Eu sei que uma solução mágica não é nem prática, nem real, nem serve de aprendizado para a vida, só que quando a gente está com dor, só quer que a bolsa de morfina chegue logo e comece a pingar direto na veia. Na verdade eu não quero me anestesiar por completo, só quero que a dor passe logo.

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