Não sei se foi a atenção de um outro homem ou se as coisas estão realmente mudadas dentro de mim, eu sei que comecei esta semana com outra disposição, outro ânimo.

 

Sei que é quase um retrocesso cultural eu pensar que precisei de um olhar de um homem para validar em mim mudanças que já vinham acontecendo (ou que eu vinha processando e provocando), mas não foi bem assim. Digamos que pelos olhos desse outro homem eu comecei a me ver de outro modo, sob outros aspectos. E nem precisaria ser outro homem no sentido de possível parceiro sexual, digamos assim, poderia ser um amigo homem, uma amiga mulher, enfim. Eu precisava que a perspectiva do olhar de outra pessoa me provocasse a pensar sobre mim mesma de outras maneiras. 

 

Porque oito anos é muito tempo, gente, e chega num determinado ponto que o olhar do outro é tão intrínseco quanto o seu próprio, e você já não distingue mais se essa idéia é sua mesmo ou é a idéia que o outro tem a seu respeito e que você toma para si.

 

Sim, isso é ruim. Não, a gente não deveria nunca abrir mão da opinão própria a respeito de si mesma em favor de uma opinião de terceiros (seja marido, amante, amigo, pai, mãe, padre, quem quer que seja), porque isso é, e aqui estou sendo bem feminista mesmo, deixar o poder, a decisão, a escolha de valor nas mãos de uma fonte externa, que pode simplesmente mudar de idéia, pegar suas coisas e ir embora. Ou me mandar embora, como foi o meu caso.

 

Mas a atenção que tenho recebido desse amigo (ok, não sei se ele é um pretendente, nem sei se é essa a intenção dele, por isso vamos continuar por chamá-lo de amigo apenas) está me fazendo repensar a atenção que dou a mim mesma. E isso sempre é bom, não é?

 

Porque oito anos de relacionamento fazem a gente relaxar nos cuidados, na atenção aos detalhes. E por mais que a gente sempre feche a porta do banheiro e use calcinhas mais ou menos bonitas, independente do marido estar prestando atenção nisso ou não, tem coisas que a gente deixa passar. O cabelo não estar lavado e escovado impecavelmente todos os dias, por exemplo, não é mais um problema tão grave de vida ou morte. Acordar com a cara toda amassada, depois de uma noite mal-dormida por um princípio de gripe e não ligar se ele viu você assim també não é mais um problema, porque você assume que ele tem um estoque de imagens bonitas suas para substituir por essa que ele vê nessa manhã. Assim como você também vai ter dele um banco de imagens (ele de terno no casamento da sua amiga, ele sem camisa quando ainda frequentava academia, ele saindo do banho num dia de barba por fazer, ele brincando com um cachorro na praia) para usar na sua cabeça no dia em que faz mais de uma semana que ele não faz a barba e mais parece um dublê do Tom Hanks no filme O Náufrago, ou quando ele está ficando quase verde de uma intoxicação alimentar.

 

Só que a memória, assim como as fotos antigas, vão perdendo a cor, e o viço, e é preciso sempre substituir esse estoque de memórias positivas, repondo as imagens desgastadas, já velhas de tanto uso, por outras mais recentes, atualizadas, que te façam lembrar dos sentimentos positivos hoje, e não de sete, oito anos atrás.

 

Eu tenho amigos que conseguem fazer essa transição, de criar novas memórias e novas experiências às histórias que já acumulam, de como se conheceram, de como se deram o primeiro beijo, de como lidaram com o primeiro porre, essas coisas. Pelo visto nem eu nem ex conseguimos recriar novas histórias, novos vínculos, novas memórias para atualizar e manter viva nossa história, e nem todo o amor e paixão e envolvimento e dedicação dos primeiros anos foram suficientes. Acontece.

 

Só que esses oito anos de casamento também afetaram as memórias e imagens que eu tenho de mim mesma, e eu não tinha percebido isso até esse amigo comentar sobre como meu cabelo estava diferente (sim, estava lavado, mas sem fazer escova) e como eu estava mais quieta do que quando ele havia me conhecido (há muito, mas muito tempo). Isso quando fomos ao cinema, porque quando saímos de novo, para um simples café à tarde, o caso foi mais além. 

 

Chegamos à cafeteria e eu já estava me dirigindo para a mesa próxima do balcão (porque era como o ex sempre escolhia) quando o amigo esse disse, quem sabe a gente senta aqui, que tem uma luz melhor? Era uma mesa próxima da janela, e o céu ainda estava claro da tarde de sol, e havia uma vista linda para ser observada enquanto conversávamos e tomávamos o café. Foi quando ele comentou sobre isso, que prefere sempre sentar perto das janelas, que percebi que o automático ainda estava operando em mim, em todos os sentidos, e que precisava acabar com isso já. Comentei com ele que não teria escolhido sentar naquela mesa se ele não tivesse falado, e que estava feliz de estar experimentando coisas novas e com essa consciência.

 

Porque nada mais me prende ao passado, certo? Certo. Nem gostos, nem preferências, nem a opinião que o ex tinha a meu respeito, mais nada disso importa. É extremamente desgastante e libertador ao mesmo tempo: tenho que redescobrir tudo ao meus respeito e tenho a independência total e absoluta e irrestrita. Só preciso descobrir o que eu gosto, e o que eu quero, e fazer isso sem interferência nenhuma.

 

Me lembrou um pouco aquele filme da Julia Roberts, Noiva em Fuga (link aqui), em que ela se envolve com uma série de diferentes homens, fica noiva de todos eles, mas de todos eles foge na hora em que está chegando ao altar. Aí entra em cena Richard Gere, como um jornalista intrigadíssimo com a história, que vai investigar todas as qualidades dela sob o ponto-de-vista dos noivos abandonados. O que ele vai percebendo é que ela, Maggie, assumiu vários aspectos da personalidade de todos os noivos, deixando de lado o que ela realmente gostava. Tanto é que quando pergunta a ela sobre como ela gosta dos ovos no café-da-manhã, ela fica em dúvida e percebe que não sabe responder. Passou tanto tempo preocupada em como fazer o café-da-manhã da maneira que os noivos queriam que deixou de lado a informação mais importante de todas: como ela gosta, ou não gosta, de cozinhar os ovos.

 

E mesmo que pareça meio sem lógica aproveitar de um outro ponto de vista para pensar a respeito do que eu quero sobre mim mesma, estava tão engessada e acostumada com um único pensamento, uma única opinião, que ter um novo ponto de referência está me fazendo bem. Como usar uma régua, quando a única coisa que havia antes era um ponto: ao menos agora consigo entender de onde vim, e escolher para onde estou. 

 

Acho que esse amigo nem sabe o quanto a simples escolha de uma mesa na janela mexeu comigo. E quantas possibilidades ainda estão por vir. Mas é assim mesmo que as grandes transformaçõs acontecem, não, com pequenas e imperceptíveis mudanças. A vantagem é que desta vez estou bem consciente delas, e disposta a fazê-las por vontade própria.

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