Quando eu estive doente, no hospital, a última coisa em que conseguia pensar era em sexo. Coisa de instinto, mesmo. Eu pensava em frio, em sede, em fome, em dor, em conforto. Eu queria abraço, sempre. Beijo, às vezes. Mas não pensava em sexo. Conversando com meu médico, ele disse que era normal, isso, que o corpo levava um certo tempo para se recuperar, e que os desejos refletiam isso.

 

Daquela vez eu levei uns dois meses até sentir tesão de novo. Que foi mais ou menos em que eu consegui me estabilizar e me sentir bem. Não que afeto não fosse importante, pelo contrário. Era super importante. Parecia que nem todos os abraços e carinhos do mundo seria suficientes para mim, naquela fase horrível. Parecia que eu só conseguia me esquentar, respirar, caminhar, funcionar, se houvesse o toque, o afago, a mão segurando a minha. No caso, a mão do ex. 

 

Desta vez levou um pouco mais de tempo até a minha libido se manifestar de novo. Mas ela voltou. E meu Deus, como voltou. Às vezes eu até me assusto comigo mesma de tanto que estou pensando e querendo sexo, mas só pode ser um bom sinal, certo?

 

Desta vez o percurso foi um pouco mais longo e bem mais atribulado, afinal não tinha lá todos os abraços que queria, nem tinha mão nenhuma para segurar na minha quando achava que ia perder o equilíbrio. Levei alguns tombos em razão disso, é verdade, mas sem tem uma coisa que a gente aprende fácil nessas horas é isso de se levantar, tirar a sujeira dos joelhos e seguir caminhando.

 

E o seguir caminhando tem me feito bem, pelo visto. Nunca estive tão tarada como agora. De pensar em sexo, de querer sexo, de querer experimentar coisas, testar novos limites. Esta semana mesmo, estava conversando com umas amigas sobre isso, e comentando como eu estava me sentindo completamente outra, com toda esse desejo e imaginação em constante funcionamento. Aí uma delas comentou que fosse isso estranho, novidade, ou qualquer outra coisa, estava me fazendo muito bem. Ela comentou que fazia tempo que não me via animada.

 

Não, nada de mais aconteceu com o rapaz aquele do cinema e do café. Ainda. Mas devo dizer que a minha vontade é que aconteça logo. Só que não é por isso que estou animada. Quer dizer, a possibilidade/perspectiva de estar com ele, e de rolar beijo, toque, abraço e tudo isso, também me anima. Mas a descoberta de mim mesma, desse desejo, com toda essa intensidade, isso me anima muito mais.

 

Aí a conversa foi caminhando até que essa amiga lembrou como eu era animada, e intensa, e sempre disposta a experimentar a vida (fosse um drink, um bar, um filme, uma roupa, um beijo), sempre aberta às diferentes possiblidades. Eu concordei, e tentei não ficar remoendo muito sobre isso, mas voltando pra casa fiquei pensando nisso: quando mesmo eu me tornei uma pessoa chata, que reclama de tudo, e que não ousa ir além do quadradinho que já conhece? Sim, porque era isso que eu estava virando, uma dessas pessoas pequenas, limitadas, que tem medo e que não ousam experimentar nada de novo pra não correr nenhum risco.

 

E não é assim que a gente acaba morrendo antes do tempo? Sem aprender nada novo, sem experimentar nada novo, sem desbravar qualquer assunto ou conhecimento que a gente não conheça ainda? Se toda essa reviravolta na minha vida significar que eu vou de novo encontrar prazer na vida, desde as mínimoas coisas até as descobertas mais grandiosas, então, bem, isso vai ser positivo.

 

E a dizer pela minha “fome” renovada na vida, acho que este vai ser um bom recomeço.

 

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