Há uns anos fui assistir a uma palestra com um artista plástico. Ele falava da criação dele, do processo, de como surgem as idéias. Aí, entre um vídeo interessante e outro, alguém fez uma pergunta e o assunto derivou para experiências sensoriais. Essa cara, muito interessante, por sinal, acabou contando sobre um dia em que, depois de passar várias e várias horas com a mulher por quem estava apaixonado, e tendo que se despedir dela (porque uma paixão avassaladora sempre pede uma despedida dramática), ficou perambulando pelo aeroporto, sem saber direito o que fazer nesse drama pós-separação, até que foi abordado por uma dessas moças que ficam nesses stands de massagem que normalmente a gente encontra em shopping e aeroporto. Ele disse que levou um tempo até entender o que a moça queria (na interpretação dele ela teria percebido que ele não estava bem e, vendo uma boa oportunidade de trabalho, ofereceu seu serviço de shiatsu) e que apesar da tensão, da dor, do peso que sentia nos músculos, recusou veementemente a massagem. Depois de passar horas explorando e descobrindo todas as possibilidades que a paixão poderiam proporcionar, não poderia pensar em ser tocado por outra mulher. Não poderia conceber ser tocado de uma forma que não fosse inundada de desejo.

Não me lembro o contexto de ele ter contado essa história, mas essa história me marcou. Porque eu fiquei pensando nisso, e não me lembrava nunca de ter sentido meu corpo tão intensamente como ele descrevia, a ponto de não permitir ser tocada por outra pessoa a menos que de um modo tão intenso e apaixonado.

Até esta semana.

E foi do nada. Foi como um raio de sol que surge depois de muitos dias de nuvens. Foi acordar e me sentir finalmente descansada, como se o meu corpo tivesse se livrado de todos os machucados, e as cicatrizes tivessem afinal parado de doer para apenas fazerem parte de mim. Foi como ligar o rádio e ouvir aquela música que parece que foi feita para mim, mesmo que ele tenha vivido no século XII. E perceber isso me fez sorrir. Aliás, ainda estou sorrindo. Porque estou me sentindo ótima. Estou me sentindo poderosa, e cheia de idéias e com milhões de vontades. Estou sentindo como se fosse capaz de correr o mundo com duas ou três passadas. Como se isso fosse mesmo possível.

O problema de me sentir assim é que fiquei temerosa de me dividir com outras pessoas. Ainda não sei direito os limites e os meus espaços, e a vontade que eu tenho é de não encontrar com ninguém, não falar com ninguém, não precisar sequer sair de casa: minha cama sendo uma grande concha pra eu poder gerar a minha própria pérola. Poder eu me transformar em pérola. Poder eu me fundir em mim mesma e virar diamante.

Acho que começo a entender o que o artista contou na palestra. É complicado estar vivendo esse carrossel de sensações e redescobertas e ainda ter que interagir com uma outra pessoa – outro ser com tantas expectativas e emoções e vontades e desejos que você mas que de repente não está na mesma sintonia ou no mesmo clima. Ou nem isso, talvez o outro simplesmente não entenda, e isso também não é ruim. São só momentos diferentes na montanha-russa, pra continuar no parque de diversões.

Esta semana o rapaz do cinema me ligou, querendo me ver. Fiquei dividida. Entre querer muito estar com ele (porque ele me faz bem, é divertido, e conversa comigo olhando nos meus olhos, e isso é muito, muito bom) e querer manter meu espaço, minha concha, meu mundinho todo só pra mim, acabei ficando com a segunda opção. Não sei se explicar tudo isso faria algum sentido pra ele. Mas tem certas coisas que eu preciso processar, resolver, digerir, transformar,  em mim, de mim, comigo mesma, para mim. E, acima de tudo, eu preciso respeitar a minha vontade. Aquela que grita tão alto dentro de mim que cala todos os outros sons do mundo. Porque é esa voz que, no fim, vai me guiar para o lugar certo, para o lugar onde eu tenho que estar. Ainda estou aprendendo a língua em que ela fala, e como é difícil, depois de tanto tempo ouvindo sempre uma outra voz – que, vamos combinar, nem sempre tinha o meu melhor como interesse principal – prestar atenção e compreender tudo que ela diz. Mas é isso que eu preciso fazer, agora.

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