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A paixão pela paixão

Estou apaixonada.

Apaixonado

Não, não é uma coisa boa. Está sendo péssimo. Aliás, este é o pior tipo de paixão que eu poderia sentir. Porque não é com ninguém específico. Não é com alguém, é com uma idéia.

Eu estou apaixonada e obcecada e completamente perdida com a idéia de me apaixonar de novo. De me envolver e me entregar de novo. De amar e ser correspondida.

E vou te dizer, é uma perda de tempo. É um atraso de vida. É um obstáculo tão gigantesco para a vida real quanto estar sofrendo pelo fim de um amor. Ao menos é a conclusão que cheguei nestes últimos dias.

Porque eu percebi que estou achando que o próximo cara que conhecer vai me enxergar como eu realmente sou, e vai se apaixonar loucamente por mim, e vai fazer de tudo para que eu também me apaixone por ele, e vai conquistar a minha confiança e me fazer sentir viva novamente, e vai me levar flores quando me encontrar na saída do trabalho, e vai pegar na minha mão pra atravessar a rua, e nós vamos sorrir um para o outro e nos sentir completos e confortáveis na presença um do outro a ponto de não importar mais se estou usando maquiagem ou se ele foi escovar os dentes antes de eu acordar.

Mas será que é isso? Será que eu não consigo mais ser eu mesma? Será que é tão difícil assim estar sozinha a ponto de eu precisar então estar apaixonada e só conseguir me sentir bem comigo mesma se estiver com a minha mão segura, bem guardada nas mãos de um homem? Não sei. O que eu sei é que é tentadora a idéia de ser resgatada, de ser importante, de ser especial novamente aos olhos de outra pessoa. E nessas horas os amigos não servem, não. Porque eles não vão querer saber todo o detalhe sobre a sua vida como alguém apaixonado gostaria de saber. Amigos já te conhecem, pra esse tipo de reconhecimento é preciso alguém que esteja descobrindo você, que queira estar perto e queira dividir todos os momentos do dia com você, só porque a vida não parece ter graça de outra maneira. Os amigos têm a própria vida pra viver, e apesar de gostarem muito e estarem disponíveis para quando você precisar, não é esse tipo de amor que faz falta.

Uma amiga me disse que eu preciso reaprender a ser eu mesma. Tenho que me descobrir, me conhecer novamente, e aprender a gostar de mim, antes de qualquer coisa. 

Eu sei que ela está certa, mas o que fazer com essa ansiedade toda, que me faz sonhar com passeios ao entardecer e beijos apaixonados a todo momento? Que me faz ensaiar conversas e planejar quanto tempo vou namorar esse príncipe encantado ainda por conhecer até decidirmos morar juntos? Quantos meses até ele me dizer que me ama de tal forma que não consegue imaginar a vida sem mim, e que, portanto, nós precisamos nos casar?

O problema é que tudo isso é bonito na minha cabeça, e o script e o cenário estão todos prontos, só que o próximo cara que conheço não entende a deixa, e não entra no papel, e não me acha a mulher mais encantadora da face da terra e, bem, não se apaixona loucamente por mim. E eu fico sentadinha na plateia encarando um palco vazio, decepcionada.

Até me ver na próxima situação em que caberá um encontro inesperado com alguém que vai me tirar do chão e me deixar sem ar.

Claro que isso não é saudável. Claro que não está certo. E claro que minha amiga tem razão: o certo seria eu me preocupar comigo mesma, e não com alguém para preencher um vazio enorme que ainda existe. Mas como é difícil seguir pelo caminho do que é certo, e da razão, quando a toda ideia de apaixonar-se e amar de novo é tão mais tentadora. Parece tão mais fácil. É bem mais bonita, apesar de não ser o melhor pra mim. Pelo menos não neste momento.

Statussingle

Achei essa imagem no google, procurando por solteira e feliz. Será que um dia eu chego lá?

O momento

Há uns anos fui assistir a uma palestra com um artista plástico. Ele falava da criação dele, do processo, de como surgem as idéias. Aí, entre um vídeo interessante e outro, alguém fez uma pergunta e o assunto derivou para experiências sensoriais. Essa cara, muito interessante, por sinal, acabou contando sobre um dia em que, depois de passar várias e várias horas com a mulher por quem estava apaixonado, e tendo que se despedir dela (porque uma paixão avassaladora sempre pede uma despedida dramática), ficou perambulando pelo aeroporto, sem saber direito o que fazer nesse drama pós-separação, até que foi abordado por uma dessas moças que ficam nesses stands de massagem que normalmente a gente encontra em shopping e aeroporto. Ele disse que levou um tempo até entender o que a moça queria (na interpretação dele ela teria percebido que ele não estava bem e, vendo uma boa oportunidade de trabalho, ofereceu seu serviço de shiatsu) e que apesar da tensão, da dor, do peso que sentia nos músculos, recusou veementemente a massagem. Depois de passar horas explorando e descobrindo todas as possibilidades que a paixão poderiam proporcionar, não poderia pensar em ser tocado por outra mulher. Não poderia conceber ser tocado de uma forma que não fosse inundada de desejo.

Não me lembro o contexto de ele ter contado essa história, mas essa história me marcou. Porque eu fiquei pensando nisso, e não me lembrava nunca de ter sentido meu corpo tão intensamente como ele descrevia, a ponto de não permitir ser tocada por outra pessoa a menos que de um modo tão intenso e apaixonado.

Até esta semana.

E foi do nada. Foi como um raio de sol que surge depois de muitos dias de nuvens. Foi acordar e me sentir finalmente descansada, como se o meu corpo tivesse se livrado de todos os machucados, e as cicatrizes tivessem afinal parado de doer para apenas fazerem parte de mim. Foi como ligar o rádio e ouvir aquela música que parece que foi feita para mim, mesmo que ele tenha vivido no século XII. E perceber isso me fez sorrir. Aliás, ainda estou sorrindo. Porque estou me sentindo ótima. Estou me sentindo poderosa, e cheia de idéias e com milhões de vontades. Estou sentindo como se fosse capaz de correr o mundo com duas ou três passadas. Como se isso fosse mesmo possível.

O problema de me sentir assim é que fiquei temerosa de me dividir com outras pessoas. Ainda não sei direito os limites e os meus espaços, e a vontade que eu tenho é de não encontrar com ninguém, não falar com ninguém, não precisar sequer sair de casa: minha cama sendo uma grande concha pra eu poder gerar a minha própria pérola. Poder eu me transformar em pérola. Poder eu me fundir em mim mesma e virar diamante.

Acho que começo a entender o que o artista contou na palestra. É complicado estar vivendo esse carrossel de sensações e redescobertas e ainda ter que interagir com uma outra pessoa – outro ser com tantas expectativas e emoções e vontades e desejos que você mas que de repente não está na mesma sintonia ou no mesmo clima. Ou nem isso, talvez o outro simplesmente não entenda, e isso também não é ruim. São só momentos diferentes na montanha-russa, pra continuar no parque de diversões.

Esta semana o rapaz do cinema me ligou, querendo me ver. Fiquei dividida. Entre querer muito estar com ele (porque ele me faz bem, é divertido, e conversa comigo olhando nos meus olhos, e isso é muito, muito bom) e querer manter meu espaço, minha concha, meu mundinho todo só pra mim, acabei ficando com a segunda opção. Não sei se explicar tudo isso faria algum sentido pra ele. Mas tem certas coisas que eu preciso processar, resolver, digerir, transformar,  em mim, de mim, comigo mesma, para mim. E, acima de tudo, eu preciso respeitar a minha vontade. Aquela que grita tão alto dentro de mim que cala todos os outros sons do mundo. Porque é esa voz que, no fim, vai me guiar para o lugar certo, para o lugar onde eu tenho que estar. Ainda estou aprendendo a língua em que ela fala, e como é difícil, depois de tanto tempo ouvindo sempre uma outra voz – que, vamos combinar, nem sempre tinha o meu melhor como interesse principal – prestar atenção e compreender tudo que ela diz. Mas é isso que eu preciso fazer, agora.

O desejo

Quando eu estive doente, no hospital, a última coisa em que conseguia pensar era em sexo. Coisa de instinto, mesmo. Eu pensava em frio, em sede, em fome, em dor, em conforto. Eu queria abraço, sempre. Beijo, às vezes. Mas não pensava em sexo. Conversando com meu médico, ele disse que era normal, isso, que o corpo levava um certo tempo para se recuperar, e que os desejos refletiam isso.

 

Daquela vez eu levei uns dois meses até sentir tesão de novo. Que foi mais ou menos em que eu consegui me estabilizar e me sentir bem. Não que afeto não fosse importante, pelo contrário. Era super importante. Parecia que nem todos os abraços e carinhos do mundo seria suficientes para mim, naquela fase horrível. Parecia que eu só conseguia me esquentar, respirar, caminhar, funcionar, se houvesse o toque, o afago, a mão segurando a minha. No caso, a mão do ex. 

 

Desta vez levou um pouco mais de tempo até a minha libido se manifestar de novo. Mas ela voltou. E meu Deus, como voltou. Às vezes eu até me assusto comigo mesma de tanto que estou pensando e querendo sexo, mas só pode ser um bom sinal, certo?

 

Desta vez o percurso foi um pouco mais longo e bem mais atribulado, afinal não tinha lá todos os abraços que queria, nem tinha mão nenhuma para segurar na minha quando achava que ia perder o equilíbrio. Levei alguns tombos em razão disso, é verdade, mas sem tem uma coisa que a gente aprende fácil nessas horas é isso de se levantar, tirar a sujeira dos joelhos e seguir caminhando.

 

E o seguir caminhando tem me feito bem, pelo visto. Nunca estive tão tarada como agora. De pensar em sexo, de querer sexo, de querer experimentar coisas, testar novos limites. Esta semana mesmo, estava conversando com umas amigas sobre isso, e comentando como eu estava me sentindo completamente outra, com toda esse desejo e imaginação em constante funcionamento. Aí uma delas comentou que fosse isso estranho, novidade, ou qualquer outra coisa, estava me fazendo muito bem. Ela comentou que fazia tempo que não me via animada.

 

Não, nada de mais aconteceu com o rapaz aquele do cinema e do café. Ainda. Mas devo dizer que a minha vontade é que aconteça logo. Só que não é por isso que estou animada. Quer dizer, a possibilidade/perspectiva de estar com ele, e de rolar beijo, toque, abraço e tudo isso, também me anima. Mas a descoberta de mim mesma, desse desejo, com toda essa intensidade, isso me anima muito mais.

 

Aí a conversa foi caminhando até que essa amiga lembrou como eu era animada, e intensa, e sempre disposta a experimentar a vida (fosse um drink, um bar, um filme, uma roupa, um beijo), sempre aberta às diferentes possiblidades. Eu concordei, e tentei não ficar remoendo muito sobre isso, mas voltando pra casa fiquei pensando nisso: quando mesmo eu me tornei uma pessoa chata, que reclama de tudo, e que não ousa ir além do quadradinho que já conhece? Sim, porque era isso que eu estava virando, uma dessas pessoas pequenas, limitadas, que tem medo e que não ousam experimentar nada de novo pra não correr nenhum risco.

 

E não é assim que a gente acaba morrendo antes do tempo? Sem aprender nada novo, sem experimentar nada novo, sem desbravar qualquer assunto ou conhecimento que a gente não conheça ainda? Se toda essa reviravolta na minha vida significar que eu vou de novo encontrar prazer na vida, desde as mínimoas coisas até as descobertas mais grandiosas, então, bem, isso vai ser positivo.

 

E a dizer pela minha “fome” renovada na vida, acho que este vai ser um bom recomeço.

 

A redescoberta

Não sei se foi a atenção de um outro homem ou se as coisas estão realmente mudadas dentro de mim, eu sei que comecei esta semana com outra disposição, outro ânimo.

 

Sei que é quase um retrocesso cultural eu pensar que precisei de um olhar de um homem para validar em mim mudanças que já vinham acontecendo (ou que eu vinha processando e provocando), mas não foi bem assim. Digamos que pelos olhos desse outro homem eu comecei a me ver de outro modo, sob outros aspectos. E nem precisaria ser outro homem no sentido de possível parceiro sexual, digamos assim, poderia ser um amigo homem, uma amiga mulher, enfim. Eu precisava que a perspectiva do olhar de outra pessoa me provocasse a pensar sobre mim mesma de outras maneiras. 

 

Porque oito anos é muito tempo, gente, e chega num determinado ponto que o olhar do outro é tão intrínseco quanto o seu próprio, e você já não distingue mais se essa idéia é sua mesmo ou é a idéia que o outro tem a seu respeito e que você toma para si.

 

Sim, isso é ruim. Não, a gente não deveria nunca abrir mão da opinão própria a respeito de si mesma em favor de uma opinião de terceiros (seja marido, amante, amigo, pai, mãe, padre, quem quer que seja), porque isso é, e aqui estou sendo bem feminista mesmo, deixar o poder, a decisão, a escolha de valor nas mãos de uma fonte externa, que pode simplesmente mudar de idéia, pegar suas coisas e ir embora. Ou me mandar embora, como foi o meu caso.

 

Mas a atenção que tenho recebido desse amigo (ok, não sei se ele é um pretendente, nem sei se é essa a intenção dele, por isso vamos continuar por chamá-lo de amigo apenas) está me fazendo repensar a atenção que dou a mim mesma. E isso sempre é bom, não é?

 

Porque oito anos de relacionamento fazem a gente relaxar nos cuidados, na atenção aos detalhes. E por mais que a gente sempre feche a porta do banheiro e use calcinhas mais ou menos bonitas, independente do marido estar prestando atenção nisso ou não, tem coisas que a gente deixa passar. O cabelo não estar lavado e escovado impecavelmente todos os dias, por exemplo, não é mais um problema tão grave de vida ou morte. Acordar com a cara toda amassada, depois de uma noite mal-dormida por um princípio de gripe e não ligar se ele viu você assim també não é mais um problema, porque você assume que ele tem um estoque de imagens bonitas suas para substituir por essa que ele vê nessa manhã. Assim como você também vai ter dele um banco de imagens (ele de terno no casamento da sua amiga, ele sem camisa quando ainda frequentava academia, ele saindo do banho num dia de barba por fazer, ele brincando com um cachorro na praia) para usar na sua cabeça no dia em que faz mais de uma semana que ele não faz a barba e mais parece um dublê do Tom Hanks no filme O Náufrago, ou quando ele está ficando quase verde de uma intoxicação alimentar.

 

Só que a memória, assim como as fotos antigas, vão perdendo a cor, e o viço, e é preciso sempre substituir esse estoque de memórias positivas, repondo as imagens desgastadas, já velhas de tanto uso, por outras mais recentes, atualizadas, que te façam lembrar dos sentimentos positivos hoje, e não de sete, oito anos atrás.

 

Eu tenho amigos que conseguem fazer essa transição, de criar novas memórias e novas experiências às histórias que já acumulam, de como se conheceram, de como se deram o primeiro beijo, de como lidaram com o primeiro porre, essas coisas. Pelo visto nem eu nem ex conseguimos recriar novas histórias, novos vínculos, novas memórias para atualizar e manter viva nossa história, e nem todo o amor e paixão e envolvimento e dedicação dos primeiros anos foram suficientes. Acontece.

 

Só que esses oito anos de casamento também afetaram as memórias e imagens que eu tenho de mim mesma, e eu não tinha percebido isso até esse amigo comentar sobre como meu cabelo estava diferente (sim, estava lavado, mas sem fazer escova) e como eu estava mais quieta do que quando ele havia me conhecido (há muito, mas muito tempo). Isso quando fomos ao cinema, porque quando saímos de novo, para um simples café à tarde, o caso foi mais além. 

 

Chegamos à cafeteria e eu já estava me dirigindo para a mesa próxima do balcão (porque era como o ex sempre escolhia) quando o amigo esse disse, quem sabe a gente senta aqui, que tem uma luz melhor? Era uma mesa próxima da janela, e o céu ainda estava claro da tarde de sol, e havia uma vista linda para ser observada enquanto conversávamos e tomávamos o café. Foi quando ele comentou sobre isso, que prefere sempre sentar perto das janelas, que percebi que o automático ainda estava operando em mim, em todos os sentidos, e que precisava acabar com isso já. Comentei com ele que não teria escolhido sentar naquela mesa se ele não tivesse falado, e que estava feliz de estar experimentando coisas novas e com essa consciência.

 

Porque nada mais me prende ao passado, certo? Certo. Nem gostos, nem preferências, nem a opinião que o ex tinha a meu respeito, mais nada disso importa. É extremamente desgastante e libertador ao mesmo tempo: tenho que redescobrir tudo ao meus respeito e tenho a independência total e absoluta e irrestrita. Só preciso descobrir o que eu gosto, e o que eu quero, e fazer isso sem interferência nenhuma.

 

Me lembrou um pouco aquele filme da Julia Roberts, Noiva em Fuga (link aqui), em que ela se envolve com uma série de diferentes homens, fica noiva de todos eles, mas de todos eles foge na hora em que está chegando ao altar. Aí entra em cena Richard Gere, como um jornalista intrigadíssimo com a história, que vai investigar todas as qualidades dela sob o ponto-de-vista dos noivos abandonados. O que ele vai percebendo é que ela, Maggie, assumiu vários aspectos da personalidade de todos os noivos, deixando de lado o que ela realmente gostava. Tanto é que quando pergunta a ela sobre como ela gosta dos ovos no café-da-manhã, ela fica em dúvida e percebe que não sabe responder. Passou tanto tempo preocupada em como fazer o café-da-manhã da maneira que os noivos queriam que deixou de lado a informação mais importante de todas: como ela gosta, ou não gosta, de cozinhar os ovos.

 

E mesmo que pareça meio sem lógica aproveitar de um outro ponto de vista para pensar a respeito do que eu quero sobre mim mesma, estava tão engessada e acostumada com um único pensamento, uma única opinião, que ter um novo ponto de referência está me fazendo bem. Como usar uma régua, quando a única coisa que havia antes era um ponto: ao menos agora consigo entender de onde vim, e escolher para onde estou. 

 

Acho que esse amigo nem sabe o quanto a simples escolha de uma mesa na janela mexeu comigo. E quantas possibilidades ainda estão por vir. Mas é assim mesmo que as grandes transformaçõs acontecem, não, com pequenas e imperceptíveis mudanças. A vantagem é que desta vez estou bem consciente delas, e disposta a fazê-las por vontade própria.

Uau.

Uma luz no fim do túnel. Única coisa que consigo pensar de tudo que me aconteceu desde semana passada até hoje.

 

Desde a semana passada que não consigo parar e pensar e respirar direito, e, bem, acho que tudo isso de uma forma positiva. Da última vez que me senti assim foi como se uma betoneira estivesse passando diversas vezes por cima de mim para depois me soterrar de pedras e cimento, mas desta vez é diferente.

 

Durante a semana passada toda as conversas e mensagens com o menino, aquele meu amigo que já falei, se intensificaram até que combinamos de ir ao cinema, tomar um chopp, essas coisas que pessoas normais (que não estão arrasadas e se sentindo morrendo por dentro, eu quero dizer) fazem. Depois de muito confabular e questionar e pensar e repensar, não achei nenhum impedimento sério contra a idéia – não estou traindo ninguém, não estou enganando ninguém nem nada mais grave – então aceitei.

 

É preciso que se diga que ele e eu nos conhecemos há muito, muito tempo. Temos outros amigos em comum, temos vários assuntos em comum, e a conversa sempre foi muito leve, muito divertida, muito interessante entre nós. Pelo menos da minha parte, nunca houve nenhum outro interesse além disso. Mas, me adianto.

 

O fato é que fomos ao cinema. Como amigos. Apenas isso. Antes da sessão fomos tomar um chopp. Como amigos. Simples assim.

 

Só que não foi tão simples assim na minha cabeça. Porque ainda havia todas as neuras e cobranças dentro da minha cabeça me fazendo pensar no ex, naquilo que ele diria, naquilo que conversaríamos, se é que estaríamos ali conversando, animadamente. As neuras e cobranças me trazendo do fundo da memória as lembranças das primeiras vezes em que saí com o ex, e de como era bom e divertido e interessante. Para, na sequência, me fazer lembrar de tantas outras vezes em que foi triste, horrível, em que brigamos, em que discutimos, em que a minha vontade era de sair correndo da mesa para chorar no banheiro. Sem contar a sensação de estar sendo vigiada, de estar fazendo algo muito muito errado, como se eu estivesse traindo alguém, como se eu estivesse apenas esperando pra aparecer alguém e apontar o dedo pra mim e me cobrir de julgamentos terríveis.

 

Mas aí eu não sei se foi o álcool do primeiro gole fazendo efeito em dissolver as neuras, ou uma luz de sanidade interna, só sei que respirei fundo e me dei conta de que não só não estava prestando atenção no que estava me acontecendo ali, naquele momento, como também estava perdendo uma ótima oportunidade de conversar com alguém que estava ali querendo me ouvir, querendo ser ouvido, merecendo o meu tempo.

 

E foi divertido, foi leve, foi interessante.

 

Ok, também foi estranho. Não estar mais no automático e não ter quem decifrasse os códigos de “quero uma água com gás” e “vou ao banheiro, te encontro lá dentro” e “vamos sentar à direita ou à esquerda?” me fez perceber que talvez eu estivesse vivendo no automático há tempo demais. Ter que parar e pensar e negociar todas essas coisas em voz alta, olhando nos olhos de uma pessoa diferente, para entendê-la e me fazer ser entendida, foi um exercício ótimo para o cérebro. 

 

Para o coração não digo, porque acho que esse ainda não se recuperou.

 

Mas me fez um bem tremendo, depois que eu consegui desligar as neuras e cobranças tão antigas, estar na rua, rindo de novo de coisas bobas. Foram algumas horas em que, posso dizer com toda a verdade, consegui desligar do passado, da dor, da tristeza, das lágrimas, tudo, e me senti bem por estar ali, conversando com um amigo preocupado com o meu bem estar, querendo de todas as formas me distrair e me dar atenção.

 

O que ele não sabe foi que ele conseguiu me fazer lembrar de mim mesma, e que essa lembrança é que me deixou mais perturbada. Então quer dizer que eu sou uma pessoa legal, divertida? Mas então, gente, onde é que eu fui parar mesmo?

 

Ele me deixou em casa, com uma despedida simples, um abraço sincero e uma pergunta: vamos fazer isso mais vezes? Sim, claro.

 

Nesta semana as mensagens continuaram, e a possibilidade de um chopp, talvez amanhã. Estou tentando não criar expectativas, não colocar muita informação nessa coisa toda, mas eu cresci com muitos contos de fada pra não pensar em quão mágico seria se alguém (ele, ou qualquer outra pessoa) simplesmente me aparecesse na frente para me resgatar de mim mesma, e me levasse para uma nova realidade, e pudesse deixar o meu presente tão reluzente e brilhante a ponto de apagar o passado por completo. E não é assim que acontece nos contos de fada? Eu sei que uma solução mágica não é nem prática, nem real, nem serve de aprendizado para a vida, só que quando a gente está com dor, só quer que a bolsa de morfina chegue logo e comece a pingar direto na veia. Na verdade eu não quero me anestesiar por completo, só quero que a dor passe logo.

O artigo de revista

Semana passada saiu um artigo na Revista Época, sobre como dizer adeus. Apesar do assunto me interessar, o artigo caiu nas minhas mãos (virtualmente) apenas ontem. E eu gostei muito, e me identifiquei bastante com a honestidade e a simplicidade com que o autor falou sobre separações. O link para o artigo completo está aqui: http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/ivan-martins/noticia/2012/07/como-dizer-adeus.html para quem quiser lê-lo.

 

Para não ficar chata, vou deixar o artigo para ser lido lá no link, e apenas falar sobre as sugestões de que ele trata no fim do artigo.

 

1. Diga adeus de verdade. Ou aceite o adeus que lhe deram. Pontos finais podem ser o começo de alguma coisa nova. Adiamentos e meias verdades não levam a lugar nenhum, e nos envenenam.

Uma amiga já me disse, que é preciso deixar o velho morrer para deixar algo novo nascer. Não sei se isso se aplica, já que eu acho que o efeito do meu término foi mais o de uma explosão nuclear, feito Chernobyl, impedindo qualquer tipo de vida por anos e anos e anos. Mas é fato que é preciso olhar o final de frente, com os olhos abertos, sem nenhuma lente colorida, e aceita-lo. Estou fazendo isso. Apesar das eventuais fantasias de que tudo vai voltar ao normal, de que isso é só uma fase pela qual ele está passando, e tudo vai voltar ao normal, estou aceitando a realidade como ela é, vivendo a vida como ela se apresenta. Sem rodeios, sem meios-termos. E tentando seguir em frente. 


2. Não se coloque na situação de vítima. Isso destrói a sua autoestima e não faz ele ou ela voltar. Romance que acaba é uma fatalidade tão grande quanto romance que começa. Não tem culpados.

Bem, ok, não segui 100% deste item. Tenho que confessar que me senti vítima, por diversas vezes. Me senti culpada, e responsável, por diversas vezes. Mas quando a gente para pra pensar nas coisas e tenta deixar o envolvimento emocional de lado, fica mais fácil de entender o processo que levou ao fim, em vez de ficar achando coisinhas, aqui e ali na linha do tempo, que poderiam ter sido costuradas de outra forma. Não podem, porque foram feitas desse jeito, que é, então é preciso aprender com isso. Sem arrastar mais nenhuma bola de ferro de culpa nos pés.

3. Assuma a responsabilidade. Não se abandone aos sentimentos negativos, como se você não fosse responsável pelo que faz ou sente. Em outras palavras, reaja.

Assumir a responsabilidade é tomar consciência das consequências dos próprios atos. Às vezes a minha vontade é simplesmente enfiar a cabeça no edredon ao lembrar as coisas erradas e bobas e cheias de insegurança que eu fiz, porque tinha medo de incomodar, de irritar, de brigar, de perder. Assumir a responsabilidade é ser adulta o suficiente para aprender com os erros, sem deixar que eles – ou o medo de cometê-los – me paralise.

4. Mantenha a dignidade. Ou rasteje com moderação. Quando você não tiver mais nada, o respeito por você mesmo – e pelo outro – pode ser de grande serventia.

Bem, tirando uma eventual espiadela no facebook do ex (e da nova namorada, tenho que confessar), acho que passei por esta com louvor. Quando a pessoa diz, olhando nos teus olhos, que não te ama mais, não há muito que se possa fazer depois disso, né. Quer dizer, há o rastejar, mas eu preferi o caminho do respeito. Respeito por mim, e respeito pela vontade dele. Não liguei, não mandei mensagem, não entrei em contato, não curti nenhum status de facebook, nada. Também fiz a minha parte para desaparecer para ele. Pelo jeito funcionou, porque ele também não entrou em contato. O que, pelo menos, é coerente.

5. Deixe o outro em paz, dê paz a si mesmo. Ficar correndo atrás da pessoa que a deixou, ou que você deixou, é tolice. Se procurou uma vez e não deu certo, fique na sua. Insistir piora tudo.

Tá, deixei. Não tenho tido muita paz, mas ao menos tenho tido o silêncio de estar comigo mesma. Ao menos tenho tido o tempo necessário para escutar minha própria voz, ouvir minha própria vontade. Ainda não decobri muita coisa, mas ouvir a mim mesma já é um começo.

6. Procure os amigos. Os seus amigos, não os dela. Gente querida distrai e nos faz bem. Ah, sim: mesmo com os mais chegados, tente não reclamar 100% do tempo. Autocontrole ajuda a sair do poço.

Neste quesito tenho muita sorte. Tenho amigos e amigas maravilhosas, que estão sendo muito carinhosos e me enchendo de amor. Inclusive tem um dos amigos, com quem não falava há algum tempo, que me manda mensagens de bom dia, me pergunta o que estou fazendo, assim, do nada, no meio da tarde, e que me manda artigos sobre filmes, e links de seriados que ele acha que eu vou gostar. Um pouco de atenção não faz mal a ninguém, e pra mim, já está sendo mais atenção do que tinha há muito tempo.

7. Recolha-se ou exponha-se, mas seja fiel a si mesmo. Nunca invente um comportamento que nada tem a ver com você para agredir o ex ou para mostrar que você é foda. Só piora.

Escolhi o recolhimento. Escolhi o sumiço. Ainda bem que não escolhi inventar um comportamento, porque atualmente não sei nem mais como ser fiel a mim mesma sendo solteira, quanto mais inventar um novo comportamento. Seria um trabalho imenso, um desgaste de energia enorme, e no momento eu preciso dessa energia pra me reconstruir. Melhor escolha até agora, o recolhimento.

8. Faça arte ou consuma arte. Ver um show da Marisa Monte depois de um pé na bunda pode ser uma experiência transcendental. Assim como escrever poemas ruins, que você rasgará (ou não) depois de alguns meses.

Estou fazendo este blog. Que me ajuda a refletir. Estou relendo partes dos livros que eu mais amo (me lembrem de falar disso depois). Estou vendo filmes e filmes e filmes. Estou aproveitando os momentos de tempo livre pra pintar as unhas, pra cuidar da pele, pra caminhar pela cidade e exercitar o olhar. 

9. Não perca pontos correndo atrás do ex anterior, a não ser que tenha virado amizade. Se ele ou ela ainda gostar de você, aproveitar-se para tentar se consolar é desprezível. E não funciona.

Não, não estou correndo, e não vou correr. Ele terminou com o clássico “ah, vamos ser amigos”, mas não dá. Simplesmente não dá. 

10. Lembre: da outra vez você sobreviveu. É importante ter isso em mente. As dores passam e a gente se apaixona de novo, mesmo que no momento isso pareça extremamente improvável.

Eu sei que vai passar, mas parece que não vai passar nunca. E como é difícil lembrar de quando a dor não existia enquanto ela ainda está aqui. Não, eu não consigo me imaginar me apaixonando de novo. Nem sei se quero. Mas vai ver que não estou pronta, ainda. 

11. Se a barra pesar demais, procure um analista. Ou mesmo um médico. Eles estão ai para nos socorrer quando o amor vira doença. Se você se assustar com você mesmo, é hora de pedir ajuda. Funciona.

Já pedi. Ao menos estou na faixa da normalidade da dor. Ao menos não estou pensando em tirar a própria vida, nem deixando de ver coisas positivas e algum aprendizado nisso tudo. Não significa que seja mais fácil, apenas que não está tão difícil.

 

O relacionamento

O que determina um relacionamento? Como ele começa? É com um pedido formal, daqueles de pegar na mão, olhar nos olhos e dizer, “quer namorar comigo?” Ou começa bem antes, com a decisão de passar mais tempo juntos, de compartilhar assuntos, de identificar afinidades? Como colocar um marco exato naquele momento em que você se dá conta de que quer passar mais tempo com aquele cara do que com quaisquer outros existentes no mundo? Não sei se isso existe.

 

Assim como também não existe como determinar o fim de um relacionamento. 

 

Quer dizer, a gente sabe a data da briga. A data e a hora da conversa. A gente sabe a data, a hora e o local em que ouviu o fatídico “precisamos conversar.” Data, hora, local, roupa, soco no estômago quando a frase foi “acho que não te amo mais.” Tudo isso a gente sabe. Mas, como identificar o início do processo? O que gera o fim de um relacionamento?

 

Eu não sei. Se eu soubesse, talvez pudesse ter evitado o fim do meu. Talvez se o fim de um relacionamento funcionasse como um mofo na parede, fosse fácil de evitá-lo. O mofo começa com uma umidadezinha que a gente não enxerga, mas que cresce rapidamente, e vira um ponto esverdeado na parede. Aí é fácil de ver, mesmo de longe, onde está o problema. E, sabendo onde ele está, fica também fácil de lutar contra ele. A gente busca de onde vem essa umidade, onde está a infiltração. Sabendo isso, a gente consegue manter o foco ali, até resolver completamente. Acompanha o resultado, vê se não vai aparecer de novo.

 

Ah, se o fim de um relacionamento fosse tão fácil de resolver quanto um mofo na parede.

 

Mas não é. A gente só consegue vislumbrar o problema depois que ele passa, como um furacão, destruindo tudo no caminho. E ainda assim não dá pra ter certeza de nada, porque é tudo especulação, já que dificilmente a gente vai conseguir que a outra parte (a que tomou a decisão, a que pulou fora do barco, a que nos abandonou, etc) nos diga, sinceramente, como tudo começou, como tomou a decisão, qual o momento em que o amor acaba.

 

O que fica, depois disso? Esses dias achei essa imagem pela internet e fiquei horas e horas pensando a respeito.

Akiss

E não seria exatamente assim, um relacionamento? A gente se mistura tanto à outra pessoa que acaba perdendo a identidade. A gente deixa de se saber por si, para se saber pelo outro. A gente deixa de se conhecer, para se reconhecer apenas pelos olhos do outro. A gente deixa de pensar em si para pensar também no outro (ou, no meu caso, pensar apenas no outro). Como continuar sendo um se a gente resolve, de livre e espontânea vontade, se dissolver nesse ente comum que é “o relacionamento” (O Namoro, ou O Casamento) e prefere viver nessa simbiose? Como impor respeito e limites e vontades, se em um determinado ponto da história tudo isso foi posto de lado, em prol de um conjunto maior, que deveria ser benéfico para ambos os lados?

 

Acho que aí é que reside o problema. Ser benéfico para ambos os lados. Até que ponto abrir mão de si pode ser benéfico? E quando a gente já abriu mão de si, como retomar a própria identidade sem quebrar o vínculo e matar esse ente superior criado (O Relacionamento)?

 

São perguntas bem complicadas de responder num post só, mas são elas que estão povoando as minhas idéias nesta última semana. O meu medo é estar tão acostumada a esse desaparecimento que qualquer pessoa que chegar perto eu vou logo querer me “misturar”, por não saber de que outra forma me relacionar.

 

Porque esse talvez seja o maior aprendizado deste momento: como ser eu mesma novamente, e como não me dissolver completamente na presença de outro alguém. Como determinar onde eu começo e onde eu termino sem que isso me impeça de me relacionar de forma saudável, novamente. 

 

Enquanto penso nisso, fico olhando para essa imagem, tão linda, tão cheia de significados e interpretações.

O espelho

Acho que já contei, mas há uns poucos anos eu precisei ficar internada no hospital, e fazer um tratamento que me obrigou a mudar várias coisas na minha rotina, e que acabou por mudar meu corpo.

 

Na época eu fiquei muito, muito preocupada, porque o corpo é nosso ponto de contato com o mundo, com as outras pessoas, e qualquer mudança na forma física passa também, e afeta diretamente, a forma como a gente se vê e se sente. Me lembro da insegurança que eu senti, da apreensão, da tensão de ter que tirar a roupa de novo, na frente dele. Na época, logo depois de ter saído do hospital, a minha apreensão maior era com relação à aceitação dele, do ex, sobre a minha nova realidade. Eu não estava preocupada em como eu reagiria ou pensaria o mundo com uma “nova” embalagem, estava preocupada com o que ele iria pensar, e de que forma ele iria agir com relação a essas mudanças obrigatórias.

 

No começo foi estranho. Eu me lembro de pensar que era quase como uma redescoberta, um recomeço, tanto para mim como para ele. Depois, claro, foi tranquilo, e as coisas se encaminharam mais ou menos para o que eram antes, e eu acabei não pensando mais nisso.

 

Voltei a pensar nisso agora. Porque eventualmente eu vou conhecer alguém novo (ou reencontrar alguém, ou redescobrir alguém, enfim) e eventualmente vou me interessar por essa pessoa e, bem, sendo otimista, essa pessoa também vai se interessar por mim, e nós vamos querer nos conhecer melhor, e talvez aconteça de nos beijarmos, e, sendo ainda mais otimista, o beijo vai ser bom e vai acontecer de eu querer algo mais, e de ele querer algo mais, e aí vamos chegar no ponto em que eu vou ter que tirar a roupa. Na frente dessa pessoa nova, desconhecida, que não sabe tudo por que eu passei. Não sabe dos obstáculos e dificuldades que eu enfrentei. Não sabe os motivos das cicatrizes que levo.

 

No meio da arrumação eu me peguei olhando fotos de uns três anos atrás, de festas em que fui, que decidi imprimir e guardar porque eu estava visivelmente feliz naquelas fotos. Estava me divertindo. Estava com amigos. Estava amando e sendo amada. E a felicidade é a melhor das maquiagens que a gente pode usar, eu estava linda. Ao menos me vendo agora, nas fotos, estou achando que estava linda, naquela altura. Ainda não tinha ficado doente, ainda não havia visto todas as manchas e rachaduras nas fundações do relacionamento que vivia, e agradeço imensamente por ter registrado aqueles momentos, porque posso hoje parar e pensar a respeito do quanto minha vida mudou. Do quanto também eu cresci por causa dessas mudanças.

 

Mas o fato é que eu me olho nessas fotos e não me reconheço mais. Eu não sou mais aquela pessoa. 

 

Só que quando eu me olho no espelho, eu também não me reconheço. Ainda não sei se sou essa pessoa do reflexo.

 

No meio de todas essas mudanças, acho que esqueci de parar para respirar, para me ouvir, para me entender, para me reconhecer de novo em mim mesma. E como eu poderia agora querer pensar em me sentir confortável ao lado de alguém, nua, se eu ainda não sei se me sinto confortável na minha própria pele?

 

Não seria tanto uma questão de auto-estima, mas de auto-dúvida. Será que sou bonita o suficiente? Atraente o suficiente? Interessante o suficiente? Não sou mais tão jovem quanto era quando comecei a namorar o ex, isso eu sei. Mas o quanto isso importa, de fato?

 

Quando se está há oito anos com a mesma pessoa, a atração e o desejo passam por outras questões, além da aparência física, e por isso eu não me preocupava mais tanto com coisas bobas como celulite, ou rugas, ou o cruel espelho no teto numa ida ao motel. Porque eu também não ligava mais para a barriguinha de cerveja, nem para os cabelos brancos que estavam ficando aparentes, entre outras coisas. Porque eu já tinha aprendido a ver além do corpo, a me entregar também além do corpo.

 

E por mais que se diga que não, a imagem que a gente acaba fazendo de nós mesmos passa também pela aceitação e validação do outro. O outro é como um reflexo. Ou melhor, é onde a gente enxerga um reflexo, dos vários que a gente usa pra montar a nossa auto-imagem, aquela idéia que a gente faz de si próprio na mente. E é a partir dessa imagem que temos de nós mesmos que fazemos as escolhas que nos colocam em contato com o mundo ao nosso redor.

 

Esses dias eu estava lendo um artigo na internet (me desculpem não compartilhar o link, mas eu perdi no meio de várias abas que se fecharam quando eu desliguei o computador sem salvá-las), justamente sobre auto-imagem e auto-sabotagem (prometo procurar pra compartilhar, porque era bem interessante), e a autora do artigo perguntava, por que nós conseguimos ser tão condescendentes e compreensivos com amigos mas na hora de cuidarmos de nós acabamos por ser tão críticos e exigentes? E não é verdade? O julgamente que eu estava fazendo, quando me olhava no espelho, eu jamais faria com uma amiga. Porque se eu falasse para ela as coisas que estava pensando de mim mesma, certamente ela não seria mais minha amiga, ou não me quereria por perto. Ainda mais num momento tão delicado, de redescobrimentos.

 

Aí decidi ser mais branda comigo mesma. Menos exigente. Deixar o olhar passear pelo espelho sem emitir qualquer opinião. Tenho feito bastante esse exercício do olhar. Olhar o meu rosto, meu cabelo, meus olhos, o contorno da minha boca. Os ombros, as costas. Meus peitos, minhas pernas. Olhar sem fazer qualquer julgamento, ou qualquer comparação com o que eu era no passado. Olhar para as minhas marcas e não ter pena ou vergonha ou medo. Olhar simplesmente, num aprendizado de reconhecimento e aceitação. Não está sendo fácil, sabe. O reflexo dos meus próprios olhos é o meu próprio, em que ainda não me reconheço, ainda não sei o que dizer a respeito. Sem saber o que fazer com essa imagem totalmente nova de mim, apenas olho. 

 

E escrevendo agora me lembrei da cena lá no final do filme Feito Cães e Gatos, (link aqui), em que a Uma Thurman diz pra Janeane Garofalo que depois de se olhar muito no espelho, o rosto não passa de formas, algumas mais quadradas, outras mais redondas, mas apenas isso, formas. E formas não são boas nem más, o que determina esse julgamento é o valor que a gente atribui a elas. Assim como o valor que a gente atribui a nós mesmas. O valor que eu vou atribuir a mim mesma, a partir de agora, nesta nova realidade. Sem a interferência do olhar de uma outra pessoa, que pode mudar de idéia de uma hora pra outra, e me deixar de novo órfã da sua opinião. O valor que eu me atribuo tem que depender de mim, apenas, e do meu olhar. Da minha própria força, e da minha própria constância. 

 

 

A retomada

Tem um ditado que diz mais ou menos assim: Como se faz para se comer um elefante? E a resposta é mais simples do que parece, apenas um pedaço de cada vez.

 

Também é assim com a vida. Um dia de cada vez. 

 

Parece papo de AA, e é. Afinal, se a gente entender a paixão, o amor, como uma alteração química no cérebro, da qual nos tornamos dependentes, e, de uma hora para a outra, nosso “fornecedor” não quer mais nos dar a “dose” de que precisamos, então precisamos agir como se estivéssemos em recuperação. Um dia de cada vez.

 

Só por hoje não vou pensar nele. Só por hoje não vou me preocupar pela milionésima vez com a mudança de status nas redes sociais. Só por hoje não vou pensar no que a minha vida poderia ter sido caso ainda estivesse com ele.

 

Só por hoje, eu vou pensar em mim. Só por hoje eu vou dar atenção aos meus amigos, que se preocupam e me mandam mensagem, e me convidam pra sair, e pra quem eu sempre respondo que estou muito cansada ou ocupada, pra quem eu peço que entendam que ainda estou meio triste e que me liguem mais tarde. Só por hoje eu vou decidir que vou desligar o pensamento do passado e fazer planos para um futuro só meu, com coisas que eu sempre quis mas deixei de considerar porque havia outra pessoa na história que desconsiderava, na maior parte das vezes, a minha vontade e os meus sonhos.

 

Só por hoje eu vou fazer aquela lista que me prometo há meses, a de prós e contras, e colocar tudo na balança, se vale a pena ou não continuar arrastando essas correntes.

 

Mesmo que uma parte de cada vez, um elefante é um bicho bem grande para se comer. Leva-se tempo. Às vezes, dias. No meu caso, está levando mais tempo. A verdade é que, mais cedo ou mais tarde, até o maior dos elefantes acaba. Só não dá pra desistir no meio do caminho.

 

A recaída

Quando a gente atinge o fim do poço, só há um caminho a seguir: a saída.

 

Isso é o que todo mundo pensa, né. Isso é o que os gurus da auto-ajuda vão te dizer. Isso é o que aquele amigo querido vai te dizer enquanto seca tuas lágrimas. Isso é o que a sociedade inteira vai gritar pra você, seja pelas capas de revistas femininas, seja pelas reportagens de auto-superação, seja pela ideia generalizada de que todos temos que ser felizes e vencedores.

 

Sinto em informar, sociedade, amigos, terapeutas, mas não é bem assim. Vocês estão todos mentindo.

 

Quando a gente atinge o fim do poço, existem duas possibilidades. Subir é uma delas. A outra é cavar e continuar descendo.

 

As pessoas ainda se chocam, mas a gente sabe que no fundo, no fundo, é isso que acontece. A gente continua cavando.

 

A gente alimenta pequenas esperanças de uma possível volta. E imagina todas as palavras que ele vai dizer, e todas as palavras que a gente vai responder, e imagina onde e quando vai ser esse reencontro, e se inspira em todos os filmes e comédias românticas já vistos na vida para criar a sequência do enredo que fica passando em looping na mente, enquanto a gente vai se ocupando com trabalho, com a louça pra lavar e as contas pra pagar.

 

Não, eu não liguei, nem procurei por ele, nem nada nesse sentido. Até porque não quero ser a “ex-inconveniente”, já que ele está com uma nova namorada. Mas às vezes ainda me pego pensando nele, e imaginando o que eu faria se as coisas não tivessem terminado tão bruscamente, e fazendo escolhas de acordo com o gosto dele.

 

Conversando com uma amiga sobre isso, ela me disse que eu ainda não me desliguei completamente. Acho que ela tem razão. E isso configura estar cavando mais fundo, não é mesmo? Eu acho que sim. E aí a solução é aquele exercício diário de concentração, e foco, e prestar atenção a esses momentos, e substitui-los por outros pensamentos, outras vontades, outros interesses.

 

Lutar contra a gente mesmo, e contra a auto-sabotagem é sempre a luta mais indócil, mais difícil. Eu sei disso. Mas também é a mais recompensadora, quando a gente não desiste. E continuar lutando é metade da vitória.

 

Então, nesta sexta-feira, vou fazer uma coisa positiva por mim mesma, neste fundo infinito de poço em que me encontro e vou parar de cavar. Não sei se já tenho forçar pra escalar todos os quilômetros que desci, mas ao menos vou parar de cavar. Já é um começo.